Um fecha- rosca à deriva

Sou de um tempo medieval e grotesco onde os jovens nascidos nas cidades que se avizinham no Litoral Norte do Rio Grande do Sul nutriam tal rivalidade entre si, que se transformavam em verdadeiros gladiadores quando se cruzavam em eventos sociais noturnos.
Quando éramos os anfitriões da festa, a vantagem numérica geralmente se convertia em vitória na batalha. Mas o troco viria quando iríamos dar uma azarada nas gurias dos municípios limítrofes. Muitas vezes tive de sair fugido dessas localidades em nome da minha integridade física.
Éramos Vikings, já disse isso em outra ocasião. Nativos de Santo Antônio da Patrulha eram os rapadureiros, e de Tramandaí, peixeiros. Tenho até medo de saber o porque de nós osorienses sermos chamados de “fecha-roscas”. Mas recebíamos essa alcunha.
Tive esse momento nostálgico porque se aproximam as eleições e me dei conta de que moro há 10 anos em Novo Hamburgo e ainda não transferi meu título eleitoral, Por que razão? Não sei.
Talvez um pouco pela minha total desilusão com o processo democrático brasileiro. Mas creio que principalmente porque uso o dia que deveria ser celebrado como um ato cívico, de todo cidadão, como uma bela oportunidade de rever meus conterrâneos flecha roscas.
Começo batendo um papo na fila mesmo da minha secção eleitoral. Até já sei o horário bom pra votar e encontrar os amigos. Depois vou a algum bar tomar um café e encontro outros vikings como eu.
É divertido e triste ao mesmo tempo. Transformei esse momento que deveria ser sagrado de escolha dos rumos de nossos recantos em uma simples ocasião para matar saudades e confraternizar com gente que me é querida.
Você pode me julgar um alienado e talvez esteja certo. Mas nesse tempo, é o que quero. Venho de muitas decepções como aquela pessoa que já não acredita mais no amor em virtude de tantas decepções. Não suporto sequer imaginar a dor de mais uma vez me sentir enganado.
Me é conveniente assim, nesse momento me valer do benefício da ignorância. Não saber dói menos. Não ser cúmplice também.
Estou distante do cotidiano de Osório e não tenho condições para escolher com clareza a melhor opção. Em Novo Hamburgo moro e não posso votar. Coisa boa.
Mas não é meu desejo aqui convencê-los a fazer o mesmo. Pelo contrário, é até deprimente que eu tenha chegado nesse estágio de desilusão. Sou um “descornado eleitoral” repleto de ressentimentos e incapaz de ter esperança.
Deixo para vocês irmãos fecha-roscas a decisão de quem vai governar nossa querida Osório, e para os Hamburguenses a escolha de qual será o novo mandatário da Capital dos Calçados.
Se é que vocês acreditam que isso vai realmente fazer alguma diferença.
Perdoem minha amargura, ela não é em vão.