Síndrome de Vira- Latas

É crescente o aumento na população de animais domésticos nos centros urbanos. Às vezes me dá a impressão que as pessoas se importam mais com eles do que com seus semelhantes.
Não cabe a mim entrar no mérito se isto é certo ou errado, mas arrisco alguns palpites para o sucesso do fenômeno da “pet mania”:
– Possuimos uma necessidade de ter alguém para tomar conta, cuidar.Creio que este seja um sentimento residual, um derivado, uma sobra do imensurável e abundante amor instintivo que a natureza nos concede para dedicarmos a nossas possíveis proles, assegurando assim a perpetuação da espécie.
– Num mundo cada vez mais individualista, os solteirões amenizam sua carência com a companhia dos quadrúpides peludos.
– O termo “dono” deixa claro que trata-se de uma relação onde está determinado quem é que manda.
– Há a possibilidade de decisões pragmáticas como a escolha de raças que podem facilitar a realidade prática do convívio, mas que me fazem lembrar a composição de Cazuza: “Pra quem não sabe amar, fica procurando alguém que caiba no seu sonho” e no seu apartamento ou pátio neste caso.
– Animais de estimação comem, dormem, brincam e dão carinho. Não pedem roupa de grife, vídeo game de última geração nem precisam cursar faculdade.
– Cachorros e gatos não falam, não reclamam durante a novela ou a transmissão da final do campeonato nacional de futebol e principalmente, não discutem a relação.
– Ter filhos biológicos ou adotados é um gesto lindo, de grandeza imensurável, mas também imbuído de um comprometimento e responsabilidade de proporcional magnitude num mundo cada vez mais complexo e hostil. Você não pode de uma hora para outra desistir e repassar para um vizinho ou anunciar na Internet: “Doa-se criança de 4 anos com as vacinas em dia”.
– É saudável para as crianças a convivência com os bichos. Apredem a dar e receber carinho e a zelar pelo próximo. E, como eles geralmente tem um ciclo existencial mais curto, elas tem a oportunidade de vivenciar e aprender a lidar com uma das lições mais duras da vida, a perda de um ente querido.
– A lealdade canina é lendária. Vinicius de Moraes dizia que “o melhor amigo do homem é o Whisky, ele é o cão engarrafado”.
– Os cães principalmente, parecem ter suas caudas diretamente ligadas ao coração, tal a velocidade que as abanam de um lado paro outro de felicidade quando seus donos chegam do trabalho. Um dia distante é o suficiente para gerar uma saudade avassaladora, quase sofrendo um infarte de alegria no reencontro.
Fico pensando porque as minhas namoradas nunca foram assim comigo. Seria tão mais legal ser recebido diariamente como se eu fosse um integrante dos Beatles.
Diz o ditado que devemos ser capazes de cultivar uma planta desde a semente e depois criar animal antes de decidirmos ter alguém para amar e compartilhar nossa vida. Então tá explicado porque ainda não casei. Não tenho nem um periquito ou sequer uma samambaia.
Se alguém pensa que este “textículo” foi uma crítica a quem ama os animais acima de tudo, está redondamente enganado. Amor é um sentimento muito nobre para ser julgado.
Só para constar, nada contra os que detém pedigree, mas prefiro os jaguaras. Me identifico com eles. Sofro da síndrome do vira-latas, é só passar a mão em mim, num gesto mínimo de afeição, uma migalha de atenção, que já é o suficiente para eu seguir atrás, leal e fiel à nova amizade. Só não fico abanando meu rabo, já me adiantando a prováveis piadinhas infames.
Só não simpatizo com o estrangeirismo do termo pet, por isso dei outro significado à ele:
P -arceria de E-terna T-ernura.