Revendo a Esquizofrenia

A esquizofrenia é um transtorno mental crônico, caracterizado por alterações da sensopercepção como delírios e alucinações, bem como inadequação da manifestação afetiva e até mesmo prejuízos cognitivos. Trata-se de um transtorno que limita aspectos pessoais, profissionais e afetivos do indivíduo, causando também prejuízos em suas relações interpessoais. Segundo estimativa realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2015, mais de 21 milhões de pessoas possuem diagnóstico de esquizofrenia.
Estudos no campo da genética mostram que a esquizofrenia pode ter influências hereditárias, uma vez que o risco de desenvolver a desordem é aumentado quando o indivíduo apresenta histórico na família. Todavia, se observa que a probabilidade de gêmeos univitelinos serem ambos afetados pelo transtorno é em torno de 50%, valor que está significativamente acima da população geral, mas que não permite reduzir tal transtorno a fatores hereditários. A presença de alguns genes pode contribuir para susceptibilidade, mas fatores ambientais e eventos estressores são responsáveis por estimular tais características genéticas a manifestar tal fenótipo.
Os mecanismos neurais que caracterizam este transtorno são bastante complexos. Neurotransmissores como Dopamina (DA), Serotonina (5-HT) e glutamato encontram-se em níveis bastante alterados, e provocam um grupo de complexas alterações comportamentais. As alterações nos níveis da dopamina provocam agitação, discurso desorganizado e embotamento afetivo. Já as disfunções nos neurotransmissores Serotonina e Glutamato parecem ser responsáveis por alterações sensoriais, incluindo possíveis alucinações.
As alterações neurais aqui resumidas fazem com que indivíduos com diagnóstico de esquizofrenia percebam o mundo de uma forma singular. Ainda assim, estes indivíduos possuem total direito de agir no mundo conforme o percebem, e nós enquanto cidadãos devemos ajudá-los a se adaptar e estabelecer relações pessoais e afetivas, dentro de suas condições. O avanço na farmacologia psiquiátrica permitiu sintetizar medicamentos que reduzem os danos da forma que indivíduos com diagnóstico de esquizofrenia percebem o mundo, reduzindo delírios, alucinações e estabilizando seu humor. O mais importante talvez seja poder alterar a forma que nós, ditos “normais” percebemos estes indivíduos. Tal processo ultrapassa os limites da ciência positivista, pois a distorção deste olhar perante aquilo que julgamos diferente parece ir além de reações neuroquímicas; o preconceito não pode ser reduzido a sinapses disfuncionais.