Quando a felicidade é pré-datada

Prazo e lucro andam juntos dizem os especialistas no mercado financeiro. Prazos longos, juros igualmente largos, no que se refere à aplicações bancárias. Se você aplica seu dinheiro, “emprestando” ele ao banco por um prazo grande sem poder mexer, sua rentabilidade será muito maior do que em outras operações como a poupança por exemplo, em que pode-se sacar o investimento em qualquer momento.
Isso ocorre na economia assim, gostemos ou não. Mas na vida não precisa ser assim.
Vejo muita gente planejando sua vida como RDB, com prazos longos, um conceito de “felicidade pré-datada”, indexando sua realização pessoal à conquistas materiais ou emocionais.
Muitas vezes já caí nessa cilada, criando atrelar meu bem estar à aquisição de um diploma de terceiro grau à um carro novo ou casa própria. Acontece que quando atingido tal objetivo eu automaticamente me sabotava e estabelecia um outro objetivo à ser alcançado para daí então, finalmente poder ser feliz. Trata-se de arrumar justificativas para a própria incapacidade de desfrutar do momento que se está vivendo. É o velho cacoete de não viver o presente, preocupado em demasia com o futuro e muitas vezes remoendo o passado.
Planejar a vida é importante, mas adia-lá é desperdício.
Porém não é fácil se distinguir planejamento e cautela de resignação e auto engano.
Se as pessoas fossem transações financeiras poderiam hipoteticamente serem divididas em alguns grupos.
Há aqueles com os pés no chão, fazem parte do “perfil poupança”, rendimentos baixos e seguros, mas que se pode usufruir a qualquer momento sem maiores perdas. São pessoas simples que se satisfazem com as singelezas do dia a dia, suspeito que são as mais bem sucedidas na arte de viver. É o grupo do “perfil fundos de investimento”.
Há as um pouco mais ousadas e que querem maiores ganhos, são o “perfil titulos de renda fixa RDB”, são capazes de projetar sua realidade para adiante, valorizam o amanhã, mas podem se atrapalhar não contemplando o hoje.
Tem também aqueles que fazem da vida um cassino, jogam alto, não se preocupam com riscos. Tanto podem ter um tremendo sucesso como um fracasso retumbante.
E existem os que vieram ao mundo á passeio. Para estes o presente é o que há. Não estão errados, mas podem pecar por não terem um mínimo de programação pessoal.
O fato é que não existe certo ou errado. Cada um decide como viver. Triste mesmo é quem terceiriza a vida. Terceiriza a culpa por sua infelicidade. Terceiriza a responsabilidade pelos seus erros.
Definimos nossa conduta na primeira pessoa do singular, para gozarmos de nossa existência na primeira do plural.
E, falando em terceirizar, me recordei de uma vez que liguei para o meu saudoso pai, já no final de sua vida e lhge perguntei:
– Oi pai, como estás? Fazendo muito sexo?
E ele, com uma perspicácia que lhe era peculiar, me respondeu:
– Filho, o sexo antes era para mim sinônimo de prazer, agora de stress. Fico sempre nervoso, pensando se vou conseguir ou não, portanto tomei uma decisão importante, terceirizei o setor.
“A felicidade não é o fim, e sim o caminho”.
Mahatma Gandhi
Obs.: Este textículo é apenas uma anologia lírica entre mercado financeiro e vida pessoal, não tem a mínima intenção de informar ou orientar sobre aplicações bancárias. Sempre é bom lembrar.