Pianista osoriense relata seu primeiro semestre de estudos e vivências nos Estados Unidos

Paulo de Campos

Não posso deixar de compartilhar com a comunidade osoriense a mensagem que recebi de Celso Barrufi Júnior, que está em Montclair/New Jersey, fazendo o Curso de Especialização em Performance Pianística na John J. Cali School of Music da Montclair State University/EUA. Celso fica um ano em New Jersey, mas já tem convites para fazer o mestrado em Lousiana ou Ohio. Celsinho também conversou (via Skype) por aproximadamente cinco horas com seus colegas e amigos da Rima. Não deixem de ler o seu interessante relato:
“Oi Paulinho, já faz um tempo que estou para te mandar um email com notícias daqui, mas as coisas foram bem corridas e só agora sentei com mais calma na frente do computador.
Bom, posso dizer que viver num outro país é uma aventura.Não é fácil se ambientar no clima (o frio é realmente rigoroso, e o verão também é bastante quente); na língua (no início me sentia mentalmente muito cansado em ter que usar inglês toda hora, mas está sendo ótimo aprender todos os dias “na marra”, aos poucos estou pegando confiança no idioma) e na cultura (realmente os americanos têm um jeito diferente que até é difícil de descrever, mas eu diria que são mais frios e ásperos). Mas tenho gostado daqui, tudo é uma questão de adaptação.
A universidade é muito boa, o Campus é gigantesco e a escola de música é belíssima, professores muito bons e salas de estudo com pianos bons. Esse primeiro semestre foi bem puxado, trabalhei repertório solo, música de câmara (formei um trio de piano e cordas com duas colegas), entrei para a orquestra da universidade tocando nos dois concertos do semestre, fiz aulas de acompanhamento vocal e fiz aulas de uma nova técnica pianística bastante famosa aqui nos EUA chamada Taubman. As primeiras semanas foram bem complicadas, me deram literalmente uma “pilha” de partituras para já começar os ensaios e aulas. Nunca toquei e estudei tanta música em tão curto período de tempo. O professor de piano, o regente da orquestra e, sobretudo, o professor de música de câmara foram muitíssimo exigentes. Eles não queriam saber o quão difícil eram as peças, tinha que levar tudo quase perfeito. Tinha dias que eu ficava até de madrugada estudando e mesmo assim parecia que não ia dar conta. Mas, na medida em que as coisas foram indo, deu tudo certo, felizmente conquistei admiração e respeito dos colegas e dos professores mais “carrascos”. Consegui tirar notas máximas em todas as disciplinas. Ao todo toquei em seis concertos (dois da orquestra, três de música de câmara e um de piano solo). Foi um semestre muitíssimo produtivo.
Assim que o semestre estava para acabar entrei em contato com outro professor daqui que conheci no Brasil anos atrás. Ele me convidou para participar de um festival de música no Estado de Maryland, onde ele iria estar como professor de piano. Ele falou que se eu fosse, ele queria que eu tocasse uma peça para piano e quarteto de cordas em dois concertos no festival. A peça é realmente difícil e complexa e eu tinha então três semanas para aprender e tocar. Fiquei muito em dúvida, mas acabei aceitando o desafio. Como as aulas na universidade tinham acabado já, aproveitei para ir para lá e estudar. A escola de música já estava deserta e eu o único lá estudando. Bom, viajei pro festival que por sinal é muito bom e bastante conceituado. Chegando lá, descobri que o meu grupo iria ser formado por duas professoras e duas alunas das melhores violinistas do festival. Na verdade quem iria tocar o piano seria o professor, e pude ver que foi um sinal de grande estima e confiança da parte dele me colocar para tocar essa obra. Ele me ajudou bastante dando muitas aulas, ensaiei bastante com o grupo (pensando: o que eu tô fazendo aqui no meio deles?). Mas por fim acabei conquistando também o respeito e admiração deles assim como de todos os outros estudantes do festival, “fiquei famoso” por ser o pianista que estava tocando com os professores. Bom, tocamos os dois concertos, que foram uma experiência incrível para mim. Fazer música com músicos de tanta qualidade e, pelo que ouvi das pessoas que assistiram, fazer música no mesmo nível. Enfim, será uma experiência memorável para mim. O Professor do festival dá aulas em uma universidade no Estado da Lousiana, ele é simplesmente genial e ainda por cima muito gente boa. Estou pensando em fazer mestrado com ele lá. Uma outra professora de Ohio entrou em contato comigo falando para eu considerar fazer o mestrado lá. Talvez tente em ambos os lugares para ver em qual terei maior êxito.
Fiz bastantes amigos aqui já, a maioria deles são estudantes internacionais (Coréia, China, Áustria, Bulgária, Espanha, Itália, e inúmeros outros lugares), pelo fato de todos estarmos na mesma situação longe de casa acaba facilitando a aproximação. Fiz amigos daqui também, algumas famílias da comunidade que acompanham os músicos e alguns poucos brasileiros que encontrei por aqui. Felizmente consegui encontrar pessoas muito amigáveis que têm me ajudado bastante. Uma coisa muito inusitada foi também encontrar parentes aqui, alguns primos do meu pai que vieram do Brasil para cá há muitos anos. Eles moram em algumas cidades no sul de New Jersey, não muito longe. Tenho visitado eles quando tenho algum tempo, eles me recebem sempre muito bem e consigo me sentir “mais perto” da família. Por sinal não foi fácil, e não está sendo, passar tanto tempo assim longe da família. Que bom que morei em Poa por alguns anos, do contrário acho que seria ainda mais difícil.
Definitivamente morar perto de Nova York é uma vantagem muito grande. Toda vez que vou para lá fico boquiaberto, é uma cidade fantástica diferente de tudo que já vi na vida. O problema é que é uma cidade cara e luxuosa. Então o desafio quando cheguei aqui foi conseguir aproveitar a cidade mesmo sem ter grana. Acabei conseguindo uns esquemas muito bons. O lugar mais especial para os músicos clássicos é a sala de concertos Carnegie Hall, a mais famosa do mundo onde só os melhores músicos clássicos tocam. Conversando com uma colega acabei descobrindo que eles estavam selecionando “voluntários” para trabalharem em dias de concerto (tipo entregando programas, carregando caixas) e em troca ganhar ingressos. Consegui entrar na equipe de voluntários, tenho até crachá com entrada liberada no prédio. Tenho assistido concertos fantásticos lá, uma coisa que sempre sonhei na vida (o outro sonho é tocar lá, mas isso é um pouco mais difícil) e o melhor, de graça. Certamente não teria a mínima condição de pagar os ingressos caríssimos. Também consegui um ingresso com a universidade para assistir uma ópera no Metropolitan Opera House, um dos teatros de ópera mais famoso do mundo. Foi fantástico, nunca vi nada igual. Agora quero ver se consigo ir aos museus e outros pontos culturais importantes de lá.
Bom, com relação à grana aqui, as coisas não têm sido fáceis. Mas também não tenho o que reclamar. Quando cheguei fiquei muito assustado com a alta do dólar. O dinheiro que eu tinha que já era pouco ficou ainda menor. Tenho tentado manter uma vida com o menor gasto possível, sem luxos, sem comer besteiras, sem comprar coisas que não sejam extremamente necessárias. Embora não seja fácil, estou aprendendo bastante. Usar roupas que no Brasil eu não iria usar por já estarem “velhas”, cozinhar em casa e levar marmita para universidade ou quando vou para NY, tomar água ao invés de refrigerantes, são coisas que tenho feito. Graças ao controle consegui fazer o dinheiro para três meses durar seis. Tenho tentado manter uma mentalidade de que “não vim para cá para comer bem ou ter luxos, isso eu tinha no Brasil, eu vim para cá para aproveitar as oportunidades e as possibilidades culturais que no Brasil eu não tenho”. Acho que tenho crescido como pessoa e aprendido a valorizar coisas que realmente importam para mim. Tenho trabalhado aqui, tenho alguns alunos particulares e estou para pegar mais alguns (eles pagam bem até). Também tenho tocado em igrejas (aqui é bastante comum, as igrejas pagarem um pianista ou organista para tocar nas missas e cultos domingo de manhã, tem muitas igrejas belíssimas aqui todas com órgãos de tubos e pianos de cauda, isso é uma coisa que não existe no Brasil), eles pagam bem também e é um ótimo trabalho porque são músicas que consigo ler à primeira vista. Até agora trabalhei substituindo músicos quando eles não podem ir, mas estou pleiteando cargo fixo de pianista numas igrejas por aqui. Não está sobrando grana, mas por enquanto ainda não fiquei sem dinheiro.
Só por curiosidade: Será que daria para se conseguir algum apoio do empresariado local ou dos poderes públicos, baseando-nos no fato de que tenho tido algum sucesso tocando por aqui? Todo dinheiro seria bem-vindo no meu caso.
Com relação aos recitais de contrapartida do projeto do MinC, que temos que realizar em janeiro nos distritos de Osório, acho que seria interessante já tentar entrar em contato com os locais que estipulamos e com o pessoal da Câmara e da Prefeitura para reservar datas, acertar detalhes de infraestrutura e tal.
Bom, escrevi bastante, mas acho que consegui dar uma resumida nas notícias daqui.
Grande abraço!
Celso”

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