Outros tempos

Muita gente ufana-se da liberdade, democracia e outras virtudes de uma vida social em tese organizada, na qual todo mundo tem o direito de ser, de ir e vir. Mas, ufanar-se dessas ideias atualmente, sem um mínimo de senso crítico, pode ser um descaso com os que estão nos degraus de baixo. A escada é muito grande, e todos querem subir, mas ela está cheia daqueles que têm a função de impedir a subida dos demais. Essa democracia até pode ser um benefício, mas a toda evidência demonstra-se insuficiente para o bem estar comum.
E as razões são óbvias: os instrumentos para o seu exercício são domínio dos privilegiados. O privilégio é um excesso social, se não para casos lógicos e específicos, porém muitos os exercem além do aceitável. Imunidade e vantagens financeiras para quase tudo, enquanto a maioria não tem sequer o direito de olhar pela janela dos sonhos. Se há democracia, há muito mais uma ditadura dos mais fortes, incrivelmente disfarçada de benefício. Alguns dos que estão com as rédeas usam-nas para manter o sistema e os absurdos antissociais. Enganam-nos com falácias e ainda fazem a gente acreditar na própria ilusão. Existirá democracia quando todos tiverem a oportunidade de se construírem economicamente porque, enfim, esse é o mundo do dinheiro, porém sem exceder o direito dos demais. Mas o dinheiro é dominado pelos poderosos, que enchem as burras nos bancos, ou se apropriam dos bens possíveis, muito além do que seria necessário. Há gente com muitos carros importados nas garagens, aparelhos eletrônicos caríssimos pela casa toda, enquanto milhares de pessoas sequer têm alimento suficiente para sobreviver. Milhares de crianças ainda vão dormir com fome. Chamam isso de democracia e nós acreditamos nessa tragédia.
Os poderosos guardam o dinheiro excedente em paraísos fiscais, os ladrões do dinheiro público também fazem isso, e ainda nos fazem acreditar que a riqueza excessiva é um direito do capitalismo garantido pela democracia. E argumentam com a velha linguagem: liberdade, democracia, palavras que o tempo e as condições sociais roubaram a consistência. No fundo, direita e esquerda, e os seus obscuros meandros, são os lados do mesmo pacote de dominação social. Há uma luta pelo poder, enquanto a maioria sofre essa miséria criada. A ciência diz que há condições de produção suficiente de alimentos, mas a miséria é usada como forma de convencimento. Deem o nome que quiserem à crise no Brasil, “crise política”, ou “crise econômica”, etc., mas são camuflagens do que de fato existe: uma profunda crise moral. A honestidade é pisoteada pela ambição e há os que se utilizam disso para ocupar postos de domínio. A política tradicional está cheia de cracas e de outros desgastes evidentes. Há gente demais usando a administração pública como forma de poder e riqueza. Ou assumimos novas ideias, ou continuaremos a sofrer esse entulho de interesses pessoais.