O sonho

Era um dia bonito. Uma corroíra cantava, ora aqui, ora ali, mas uma indolência morna apossava-se do meu corpo. Uma dorzinha no peito deixou-me angustiado, com falta de ar. Busquei a sombra e me recostei sob o velho e robusto cinamomo.
Não sei bem o que houve comigo; sei que, quando me dei conta, o ambiente tinha mudado. Eu estava em um corredor escuro, lúgubre e infindável, que se abria em muitos outros, paralelos, como num labirinto. Nas paredes, lado a lado, prateleiras enormes guardavam caixões de defuntos, de todos os tipos e tamanhos, enfileirados, como se ali guardassem todos os mortos do mundo. Em todos eles estava escrito um nome de pessoa, de um lugar e uma data. Em busca de uma saída, caminhei horas e horas, inutilmente, sem nunca chegar a lugar nenhum. Então, longe, um vulto apareceu e vinha, lentamente, ao meu encontro, como uma sombra. Quando chegou perto, não vi seu rosto. Entregou-me um envelope, cheio de números e apontou-me um caixão, no qual estava o meu nome. Mas não havia data nele. Entendi a ordem. Eu devia marcar o dia da minha morte, decidir o meu tempo de vida. Tirei os números do envelope e comecei a escolher uma data. Que números? Qual o fim de todos os tempos? Eu preferia morrer na eternidade. Olhei para o vulto e percebi que ele, a Morte, espreitava-me, impaciente, deixando entender que é pouco o tempo para se decidir. Quanto mais tempo se leva para decidir o próprio destino mais rápido a vida se esvai. Porém, eu continuava indeciso. Então, os números começaram a se dissipar entre meus dedos e, outra vez, o ambiente mudou. Uma luz fraca apareceu. Mas a corroíra não cantava, não senti a sombra do velho e robusto cinamomo. Eu estava deitado dentro de um caixão e vi, por um visor acima de mim, pessoas que largavam o meu corpo numa tumba. A claridade foi sumindo e só me restava uma fresta, como num túnel escuro. Pude ver um homem pegar uma cruz e começar a escrever uma data nela. Tentei lê-la, mas não consegui. Eu existira, em vez de viver e não me dera conta disso; não soubera estender o meu tempo de vida. Chegara ao fim. A luz se apagou e, com todas as forças que me restavam, dei um grito, um grito horrível, mas ninguém ouviu. Ninguém.