O roteiro

Paulo anotou o que viu em forma de roteiro. Anotou cada momento, como se fosse reescrevê-lo, acrescentar detalhes oportunamente. O Inspetor os lê:
Onze horas da noite. Estou no meu quarto, no segundo andar. Da minha janela, vejo um homem gordo na calçada. Usa chapéu e fuma, impaciente.
Onze e dez. Um carro para. Outro homem desce. Conversam. Os dois entram no edifício.
Onze e quinze. Ouço passos no corredor. Vozes no apartamento ao lado.
Onze e vinte. Os homens saem, entram no carro e partem. Apressados.
Onze e vinte e dois. Outro homem chega, em outro carro. Entra no edifício. Vozes, ruídos, correria.
Onze e quarenta e quatro. Sirene. A polícia chega. Descem policiais e o homem gordo, com chapéu. Fecho a cortina. Apago a luz. Escuto. O vizinho foi encontrado morto.
Meia noite. Não tenho sono. Sei quem foi o assassino. Tocam a campainha…
O roteiro encerrava nesse ponto.
O homem gordo pensa: “meia noite e dez. Um roteirista bisbilhoteiro também teve que ser assassinado.” Depois, contempla o texto por alguns instantes, acende o isqueiro, aproxima o papel da chama e o queima, totalmente. A labareda quase lhe queima o chapéu…