O Natal

A música de Natal vem do campanário e se esparge sobre o lugarejo. Mas o dia está nublado, silencioso. As árvores estão imóveis, em expectativa. Não há sequer uma brisa. A música diminui e para. O silêncio torna-se quase absoluto. Nem os pássaros cantam. Os nimbos se acumulam nos topos das montanhas. Há uma espera no ar. Até que um pássaro cochicha e outro, com um trinar melodioso, anuncia a presença de alguém.
Ouvem-se passos, vagarosos, impacientes. São de um menino, pobre, com o rosto amuado, de quem vai a um lugar que não quer ir, fazer algo que não deseja. Anda contra a vontade, olhos no chão, solitário. Leva com ele um pequeno cesto para receber eventuais presentes natalinos.
A natureza o observa; as árvores e os pássaros estão atentos. Defronte à sala ao lado da igreja, ele para, olha para os lados e anda em direção à porta. Está fechada. Chegou atrasado. A festa acabou, as pessoas saíram. O lugarejo ficou deserto, a música parou, o campanário entristeceu,
O menino apalpa, empurra, força a entrada e a grande porta concede uma fresta suficiente. Ele entra. Um raio de sol aparece, a brisa chega, as folhas se movem, os pássaros cantam.
Mas, não há ninguém lá dentro. A solenidade terminou e o homem vestido de Papai-Noel não está mais ali. O menino sai, mais triste, mais amuado e retorna pela mesma rua. O sol se esconde, as árvores se quedam, os pássaros emudecem. O único ruído é o dos pequenos chinelos, que vão contrariados, xingando o silêncio. O cesto continua vazio.
O menino vence a rua calçada e prossegue pela estrada de chão, no rumo do anoitecer. Em algum ponto, ele chega a uma casa humilde, com o cesto vazio.
Os nimbos descem das montanhas e cobrem o vilarejo. O dia começa a ir embora. O campanário veste-se de negro. Um vento surge inquieto. Cai uma chuva forte, ruidosa. Os pássaros buscam abrigo, as árvores se agitam, as gotas escorrem nas folhas e formam uma torrente de água, que penetra no solo e molha a alma da terra.