O mendigo na calçada

Nas calçadas, à luz das sombras,
Sento-me sob essas marquises de desamparo.
Ali, desobrigado de formas de ser,
A olhar os transeuntes de baixo para cima,
Vejo as misérias de todos nós,
Misérias infinitas, a nos tocar com suas texturas reais.
Ali, eu e meus olhares pulsantes
Vemos seres indistintos a carregar nuvens
O chão pisando em seus desalentos
Ali, reconsidero os desdéns e os afetos.
Vejo os tetos ausentes dessas casas em que não moro
Essas camas aquecidas em que não durmo
Esses jantares em família que não tenho
Ferem-me os dedos famintos de carinhos
E o desamor dos que passam com seus olhares de não ver.
Eles, que são os mendigos dos seus mundos nas trevas,
Perdidos em sua incapacidade de chorar,
De se sentarem comigo nesses becos sem saídas
No meio-fio dessas calçadas onde vivemos
Andarilhos sem rumos nas ruas de si mesmo.
O andar combalido pelas distâncias dos vazios
Seres excluídos da miséria real
Nutridos de verdades inúteis
Os desagrados jogam-me censuras
Mas, ali, no chão frio desses mundos incrédulos,
Vislumbro o meu ínfimo direito de ser.
Ali, eu me significo.
O que seria da piedade e das súplicas
Das luzes e das sombras, sem o mendigo nas calçadas?
Nelas, eu sou a condição humana.
Ali, realimento a consciência dos seres.
Vejo as suas dores e me vejo.
Dores de penumbra, escuras.
Dores de existir, cortantes como facas de mil gumes.
Ali, eu sou. Ali, nós somos.