O manual de viver

Isso não existe; mas pessoas o procuram, e até acham que o encontram, aqui e ali. Não se aprende a viver como seria necessário; fazem-nos nascer. E existir. Quanto a ser feliz, não ensinam muito; deixam a maior parte por nossa conta. Alguns pais, escolas, religiosos, dão-nos alguns conselhos: faça assim, assado, etc. Temos o privilégio da presença deles, com os quais navegamos. Dirigem o nosso barco; somos apenas passageiros, olhando o cenário. Porém, muitos ficam à deriva, em mar tempestuoso, sem rumo. Não recebem instrução, nem apoio emocional. Pouco a pouco, a estrada encurta e o horizonte some. Mesmo sem querer, ficam adultos, às vezes em tenra idade e, nesse fatídico dia, tornam-se donos do próprio destino. Ainda crianças, têm que cuidar de si mesmo. Alguns herdam bens materiais e isso os sustentará fisicamente, apenas; outros, nenhuma herança recebem. Eis que surge uma verdade, inconsciente, mas profunda e cruel: não existe manual de viver. Mas a gente tem que comer, vestir, divertir-se. E agora? Resta-nos sair à rua e enfrentar o mundo, porém a verdade bate de frente com nossos sonhos: milhares de estradas, sob clima instável, e nenhuma pousada no percurso. Com tantas placas indicativas, nessas encruzilhadas da vida: qual delas seguir? Há muitas, a indicar caminhos bons e ruins. Uma é mais destacada: “vida fácil, dinheiro e prazer imediato”. Tem uma vantagem: um grupo de amigos com os mesmos problemas, outros deserdados. Pode ser a nossa ilha nesse mar infinito de caminhos insondáveis. Sem apoio emocional, sem preparo, sem condições materiais e psíquicas, seguimos o caminho mais fácil. E ainda fazemos algo indispensável: dizer à sociedade circundante que não tivemos apoio, uma verdadeira relação de vida. Dizer à sociedade que existem problemas e que não nos ensinaram como agir efetivamente. Um grito mudo de socorro. Mas, no mundo de hoje, com tantos caminhos difíceis para todos, o silêncio e a indiferença têm sido a resposta mais comum. Porém, mesmo com o nosso despreparo, precisamos escolher, talvez o caminho mais destacado, com o risco de, se errar, não haver possibilidade de retorno.
A sociedade tribal, em que a gente tinha a presença do grupo, em que se era parte do todo, acabou. Para muitos, viver tornou-se um deus-dará; cada um cuida de si. Compensamos-nos com vazios, disfarçados de prazeres, e com esses “amigos”, alguns travestidos de estudantes, que surgem nas esquinas da vida, inclusive nas escolas, a nos vender uma solução emocional. Por que nas escolas? Porque, junto com o despreparo da idade, ali podem estar outros deserdados. A aula mais profunda, de efetivo preparo, de amor e atenção, nem sempre é suficientemente ministrada. Dizem-nos que o mundo do conhecimento é necessário e suficiente. Será? Não haverá outro, talvez da segurança emocional, de fato indispensável? Enfim, um mundo cheio de livros de autoajuda e nenhum efetivo manual de viver. Pouco preparo efetivo para a vida, com intenção e método. Uma falha familiar e social.