O mal que nos castiga

Não são as dores físicas que maltratam; são os látegos invisíveis, os olhares sem ver. Não são as chibatadas que machucam; são os vazios, o tato insensível das nossas mãos carentes. Há misérias mais sofridas do que a pobreza material. Há sofreres maiores do que as dores físicas.
O que me faz sofrer é a incapacidade de desconstruir as crenças, de repor a felicidade em todos os sentires, de recriar o mundo. O que me faz sofrer é a incapacidade de supliciar o mal com todas as minhas forças. Mandar o diabo para o próprio inferno; queimar-lhe as entranhas em seus caldeirões de maldade. Matar esse demônio que alimenta a sordidez, matar o nosso próprio engano. Sem diabos não existiriam deuses; sem deuses, não existiriam diabos. Porém, as mentiras nutrem-se umas às outras, sempre sob a capa de um interesse. Devia ser proibido explorar a credulidade. Devia ser proibido alimentar com mentiras o sofrimento alheio. Devia ser proibido pôr fantasmas nas cabeças dos sofredores para lhes extrair o dízimo da dominação. Devia ser proibido expurgar-nos os demônios e usar isso para nos explorar. Cinismo e desdém são pés horrendos, mas os outros são seres-chão.
O que a gente faz ante a incapacidade de refazer o mundo, de recriá-lo? De replantar esperanças no coração das pessoas? De repor o brilho nos olhares das crianças que, absurdamente, ainda vão dormir com fome. Por que nascem essas misérias da nossa incompetência? Até quando vamos aceitar a insensatez, enlamear as águas cristalinas, as nossas florestas de sonhos? Por que não devastamos com motosserras os nossos cinismos?
Eu estou transbordando dessas águas pútridas, desses sarcasmos que andam pelas ruas, ostentando-se. O mundo está pedindo luzes, ressuscitar a vontade dos mortos, abrir a tumba dos desassistidos. Precisamos sair de nós mesmos, desnutrirmos-nos dessas “verdades” interesseiras. Mas os olhares não veem. Os sentires estão mudos. Não vimos a incapacidade de nos amarmos sem recompensas, de nos doarmos sem trocas. A pureza está indo embora para o fundo dos penhascos, nas águas que já foram cristalinas.
O que de fato nos faz sofrer é a indiferença, o cinismo, o olhar que não vê, o sentir que não sente, o ouvir que não ouve, o desconhecimento, a inação, a subserviência aos poderes sem causa. O que nos faz sofrer é ignorar o brilho dos nossos esplendores.