O kamikaze da salmonella

Já fui cobaia de mim mesmo. Fiz de meu corpo um verdadeiro laboratório de experimentos químicos; só não bebi querosene.
Me converti, por livre e espontânea vontade, num hâmster que corria freneticamente numa roda giratória que não saía do lugar.
Desnecessário dizer que não obtive bons resultados em meus experimentos.
Embora tal comportamento passe a impressão de um perfil auto-destrutivo, nunca percebi em mim tendências suicidas, ao menos não em nível consciente e racional.
Longe de mim pretender julgar a mente inquieta, metódica e agonizante de um ser humano que decide por dar cabo à própria existência.
Não tenho essa pretensão e nem conhecimento para tal.
Mas essas auto- sentenciadas almas me intrigam, eu confesso.
Informalmente, de maneira absolutamente leiga, eu acredito que existam diferentes padrões de suicidas.
Há aqueles como os famosos kamikases, pilotos de aviões japoneses carregados de explosivos, que o faziam em prol de uma causa vislumbrando a glória póstuma. Nesse grupo parecem se encaixar também os homens-bomba dos grupos terroristas fundamentalistas do islã.
Para o psicólogo israelense Ariel Merari, que estuda o assunto há 30 anos, o que fomenta os atos criminosos e suicidas destes muçulmanos na verdade é a necessidade de se sentirem especiais. São geralmente Jovens carentes por pertencer à elite de um conjunto social, por isso se mostram mais leais, dedicados e dispostos a se sacrificar em nome do grupo. O ataque daria a eles o ingresso ao clube exclusivo dos heróis suicidas, compensando uma vida de fracassos sociais e pouca visibilidade.
Eu admito que mente pervertida e pecadora sempre imaginou que o maior incentivo para eles era a promessa da recompensa de 72 virgens no paraíso.
Mesmo assim eu não os perdoava, mas conseguia compreendê-los melhor pensando dessa forma mais hormonal.
A honra perdida já era o que buscavam os samurais através do haraquiri, ou seppuku, num ritual sangrento e doloroso com a auto penetração das lâminas de suas próprias espadas.
Como vocês podem notar, nunca me matei, mas arrisco dizer que, na maioria das vezes, o suicida usa a morte como uma fuga. Ele “não quer necessariamente acabar com sua vida e sim com uma dor ou angústia que no momento lhe parecem insuportáveis”, como diz Augusto Cury.
O Suicida é portanto um covarde?
Não.
Acho que é um desesperado.
Outro fugitivo de si mesmo é o viciado que é capaz de tudo para saciar sua fissura, pois não é capaz de suportar a ausência da próxima dose.
Igualmente ocorre com o suicida: paradoxalmente, a mesma coragem que tem para ceifar sua própria vida, lhe falta para encarar aquilo que o atormenta.
E, por falar em motivações, vocês que tiveram saco de ler meu textículo até aqui, devem estar pensando no que me motivou a escrever sobre tema tão mórbido.
E lhes digo que foi a maionese caseira feita com ovos crus que comi há cinco minutos atrás.
Saboreando essa iguaria potencialmente letal, me dei conta de o quanto gosto de me arriscar, de andar na corda bamba. Sei dos enormes riscos de infecção pelas agressivas bactérias da família das Salmonellas Entéricas, que corro ao ingerir tal refeição. Mas mesmo assim o faço.
Rejeito a segurança alimentar das maioneses industrializadas e seu paladar quase cítrico. Danem-se as recomendações dos médicos sanitaristas.
Sim, sou abstêmio ao álcool e drogas, careta há vários anos, mas sigo judiando do humilde e castigado templo carnal que abriga minha imperfeita alma.
Um bom “Xis” tem como pré requisito obrigatório ser feito com maionese caseira, e isso serve para a salada de batata no churrasco também.
A regra é clara, Arnaldo.
Se sou um suicida alimentar?
Não. Apenas o prazer que a maionese me proporciona vale o risco.
Sou refém de seu poder sobre minhas papilas gustativas.
Não quero me matar. Sou, na pior das hipóteses, um suicida culposo. Me mato sem a intenção de fazê-lo.
Mas não me entregarei assim tão fácil, de lambuja.
Não vou me demitir da vida, esperarei que Deus me despeça ele mesmo. A Justa Causa Ele já tem.
Será que “viajei na maionese”?