O grito

Ele ainda ressoa e até consigo ouvi-lo. Vem de longe, da minha infância. Mas não é um grito de dor, de desespero. Não é um grito de angústia, de sofrimento. É um chamado. Da minha mãe. Ficou gravado na minha condição.
Naquele tempo, as crianças brincavam na rua, nos quintais, nos largos pátios, e, acreditem, até longe de casa, nas cercanias das vilas e cidades. Mal terminada a primeira refeição da manhã, vinha a ordem das mães, seguida de muitos conselhos: “Vão brincar na rua…”, “Cuidado com o rio”, “Não vão muito longe”, etc. O mais velho recebia o encargo de cuidar dos outros. O mundo era um largo e maravilhoso espaço de viver. Eu e meus amiguinhos chegávamos a ir quilômetros de casa. Subíamos morros, cômoros, rochedos, íamos ao mar, ao rio, à lagoa, pescar, nadar, comer frutas. Não havia TV nem vídeo game. Quando ficávamos nas cercanias da casa, nos quintais, na vizinhança, as mães marcavam presença com um grito: “Fulano!”. Hora da refeição, de receber uma tarefa, ou para saber onde estávamos. Pelas ruas daquelas vilas e cidades, era comum ouvir as mães chamando os filhos aqui e ali. Muitas vezes, um chamado alto, de ser ouvido a distância. E cada um conhecia o de sua mãe. Se tivessem ocorrido peraltices, éramos recebidos com a tradicional varinha de marmelo. A surra, mesmo apenas como ameaça, era um componente repressor indispensável. O chamado materno é um som que fica gravado em nossa condição e que identificaremos pelo resto da vida. Ele atesta com a importância da condição materna. E eu tinha o meu, constante. Um chamado cheio de ternura, inesquecível. Um dia… Ouvi um chamado materno mais desejado que todos os demais…
Meus pais se separaram quando eu deveria ter uns cinco anos, se não menos. Quando os pais resolvem fazer um novo par são os filhos que pagam por isso. Durante muito tempo, até a idade dar-me força de viver sozinho, eu morei um pouco com cada um deles. Então, com essa idade, fui morar com meu pai em uma propriedade rural. Por largo tempo, deixei de ouvir o chamado materno e a minha convivência com a madrasta não era boa. Um dia, eu estava brincando, sozinho, a uns cem metros da casa, de cócoras, sob uma bananeira, distraído, mas com muita saudade da mãe. Então, eu ouvi aquele grito, um chamado pelo meu nome, que poderia reconhecê-lo no fim do mundo. Falei alto comigo mesmo: “É a minha mãe!”. E saí em desabalada corrida. Ela estava na porteira da propriedade e, mal nos avistamos, ordenou-me: “Pega as tuas roupas e os teus sapatinhos e venha, rápido, que o teu pai não está!”. A minha madrasta não apareceu. Entrei em casa, peguei rapidamente o que encontrei e saí, sempre correndo. Furtado do meu pai, voltei para o lar materno, onde o aconchego sempre parece mais terno e aquecido. No caminho, tivemos que nos esconder do meu pai, que vinha pela estrada. De tantos outros desacertos que me legou a vida, aquele chamado na infância ficou dentro de mim, como parte do meu ser, e sempre será ouvido. Sempre.