O Frankenstein do Amor

Frankestein foi um personagem idealizado e descrito em obra literária por Mary Shelley quando esta tinha apenas 19 anos, em 1816. Ele era um Morto Vivo criado por Victor Frankestein, um estudioso das ciências naturais, pegou porções de diferentes cadáveres para fabricar seu monstro. Era uma colcha de retalhos ambulante, uma junção de pedaços de defuntos.
Me sinto um Frankestein as vezes. Não por ser um monstro, embora também me sinta assim esporadicamente. Mas por ser constituído, ao longo dos anos por pequenas porções de minhas falecidas. É prudente esclarecer que “falecida” não é um termo técnico, e sim um singelo apelido que dou as minhas ex-namoradas, e o vocábulo até que se encaixa bem neste contexto de analogia mórbida com uma história de terror. Mas como eu ia dizendo, percebi que guardo heranças comportamentais dos meus romances. De um, assimilei o hábito de assistir filmes de suspense, de outro o gosto por comida japonesa ou dormir de conchinha e assim por diante.
Alguns desses pedaços de vida se incorporam à minha decrépita alma e ali permaneceram tatuados de tal forma que as vezes me parecem que sempre fizeram parte de mim. Essas maravilhosas mulheres que fizeram parte da minha vida em algum momento dos meus 38 anos, hoje já não tem significado emocional relevante, mas alguns desses traços de convivência se aderiram a este errante ser.
Há quem diga que levar novos amores a locais que comumente se frequentava com a companheira anterior é uma espécie de traição póstuma. Você está dividindo e revivendo com outra pessoa momentos que deveriam ser fielmente lacrados e guardados nas profundezas da memória para serem revisitados vez que outra atrelando-os diretamente com quem os compartilhou conosco originalmente. Seguindo esse raciocínio, essa repetição de hábitos seria um estelionato com a nova parceira, ela estaria participando de um “remake” sem saber, um vale a pena ver de novo com novos atores. Muito diferente do ineditismo que se espera de uma nova e ardente paixão. Mas, no meu caso é diferente, eu sou o monstro fatiado mesmo estando sozinho. As afinidades que outrora me aproximaram à elas, acabaram deixando marcas residuais na minha personalidade e conduta. Aonde quer que eu vá procuro deixar um pouco de mim e levo também algo comigo de lá. Sou assim, uma junção de um pouco de tudo que vivi, um “patchwork” de experiências e de emoções costuradas entre si com as linhas da saudade, dor ou apenas do tempo. Não escondo as cicatrizes, as lambo como um animal ferido até não mais me causarem desconforto e então as exibo como ornamento existencial.
Frankestein tinha um grande ressentimento e ódio para com o seu criador. Primeiro por que fora abandonado, rejeitado. E quem gosta de ser rejeitado?
E segundo porque a promessa que lhe foi feita de que receberia uma noiva aos seus moldes não fora cumprida, e o velho Frank se sentia uma aberração, única, sem pares mergulhado numa solidão sem fim.
Sempre julguei difícil encontrar uma monstra da minha espécie, pois se a coitada existisse deveria ser abominável, uma Ogra, assim como eu. Contudo venho sempre contando com a sorte de conhecer pessoas bem menos assustadoras e temerosas do que eu.