O fascínio

Nas praças existem árvores e jardins. Nos jardins, há flores. Lindas flores. Nas árvores existem pássaros. Pássaros cantores. Na praça, nas árvores, nas flores e nos caminhos existem insetos e pássaros e, às vezes, outros pequenos animais. Há seres em todos os lugares. Até cachorros vira-latas transitam pela praça. Árvores, jardins, flores, pássaros, animais. Há vida nas árvores, nas flores, nas praças, nos jardins.
Uma pessoa vem caminhando pela praça, indiferente ao mundo à sua volta. Ela vem olhando para a sua telinha com um fascínio incrível. Há fascínio em quase todas as telinhas do mundo. A pessoa está absorta. Ela para, mas continua a olhar. Quase mecanicamente, ela se aproxima de um banco vazio. Senta-se para olhar melhor. Continua absorta. Sorri, murmura e fala consigo mesma, mas não para de olhar para a sua telinha.
Em torno da praça, há pessoas e veículos transitando. É primavera e a praça está lotada de seres, de cores, de luzes, de flores, de sons. Muitos transeuntes cruzam pela frente da pessoa com a telinha e outros sentam ali perto. Mas, parece que a pessoa não vê nada disso. Ela vê apenas a sua telinha.
O dia está indo embora. O entardecer chegou. A pessoa está sentada na praça a olhar para a sua telinha. Decerto o lusco-fusco começou a cruzar a sua visão, ela se levanta e começa a andar. Toma a calçada que rodeia a praça. Caminha um pouco por ela e, então, começa a cruzar a rua. Sempre a olhar para a sua telinha.
Na praça, há árvores, jardins, flores, pássaros, insetos, pequenos animais, cachorros e sons. Sons de cantares dos pássaros, de latidos de cães. Sons do vento na folhagem. E sussurros. Falares quase em silêncio de alguns idosos sem telinhas. Mas a pessoa não viu nem ouviu. E agora há um som diferente no ar. Um som mecânico. Um rangido. Sons de gritos, de sobressaltos. De sirene. De ambulância, de polícia, de pessoas correndo.
Entre as muitas pessoas que chegam, um curioso vê a telinha ensanguentada caída no asfalto. Continua funcionando. Ele pega a telinha e fica a olhá-la. O fascínio continua nela. Outras pessoas se aproximam e ficam a olhar para a telinha. Um dedo faz andar a tela várias vezes e surge uma notícia: “um estudo concluiu que o mal do nosso tempo é a adoração pela telinha. As pessoas quase não veem mais o mundo. Não veem praças, nem flores. Não veem pássaros, não ouvem os sons. Mas veem a telinha”.
Aquelas pessoas no meio da rua continuam a olhar para aquela telinha ensanguentada. Nos olhos da pessoa morta há um brilho, um reflexo. Alguém mais compadecido fecha os olhos da pessoa morta. Na praça, continuam as cores e os sons da vida. O corpo continua no asfalto.