O dia em que não houve culpados

Não gosto de velórios. Mas será que tem alguém que gosta?
Não sei, talvez.Tem gente que é tão carente e sem coisa melhor para fazer que possivelmente veja nessas ocasiões, um momento propício para encontrar pessoas, conversar, confraternizar. Não é o meu caso. Sempre evitei comparecer em cerimônias fúnebres de despedida.
É muito angustiante assistir a dor de quem fica, e sem poder fazer nada pra ajudar.
Nenhuma palavra ameniza. Nenhuma frase alivia o sofrimento. Mas, aprendi por experiência própria, que um abraço conforta, e a simples presença de um amigo afaga a alma nesse momento.
Dessa vez foi diferente. O telefone tocou, e uma voz já embargada e vacilante balbuciou:
“-O gordinho se foi”.
Do outro lado da linha era o Edson Silva da Rosa, ou simplesmente Edinho, um grande cara a quem tenho enorme apreço e que no momento em que perdia um irmão seu de coração, teve a lembrança de me avisar.
Minha relação com o Leandro, já fora bem mais próxima, e embora cultivássemos um carinho mútuo, atualmente estávamos um pouco distantes, mas naquela ligação eu experimentei uma sensação de perda muito grande. Senti uma necessidade muito forte de me despedir do Leandro. De participar disso.
Talvez porque o conhecesse desde que me entendo por gente, e por isso fazer parte da minha vida.
Talvez porque também nutro grande afeição por seus familiares.
Talvez pela pessoa íntegra e bondosa que o Leandro sempre foi.
Talvez por saudades de um amigo que nunca mais verei.
Ou talvez por tudo isso junto e misturado. Sim, tudo junto e misturado, assim como era o perfil agregador do Leandro. O “Gordo” estava acima das turmas, das idades, das tribos e dos blocos. Aliás, volto a falar dos blocos carnavalescos mais adiante.
Osório sempre foi festeira e boêmia, e por ser uma cidade pequena, jovens dos 13 aos 50 anos frequentavam os mesmos locais para se divertirem a noite. Não havia outras opções. Esta realidade tinha seu bônus e seu ônus. Era ruim para os adolescentes precocemente encararem uma vida noturna adulta, com todos seus apelos e riscos, e para os mais maduros também, por terem que dividir espaço com a “pirralhada”.
Mas o lado bom é que todo mundo se encontrava seja nos clubes, GAO ou Sul brasileiro, ou nos bares como Taió, Solar, Casarão, Cancun, etc… E o Gordo era bem quisto por todos e transitava tranquilamente em qualquer um dessas turmas, independente de faixa social ou etária.
O Leandro para mim representa e resume bem toda uma geração de “jovens” osorienses que se dividiam em grupos somente no Carnaval, e como eram legais e fortes os blocos no Carnaval de Osório. Além de uma saudável rivalidade durante a folia no salão, havia eventualmente os desfiles e até competições esportivas entre eles.
E todos estavam lá para homenageá -lo pela última vez:
Tartarugos, Supimpas, Cirrose, Tequila, Esquadrilha da Fumaça, Bixo de Pé, Tô Ninia e outros que não recordo.
Mas desta vez não houve festa, não houve riso, nem confetes ou serpentina. Mas principalmente não houve culpados, porque nesse dia, todos, absolutamente todos foram INOCENTES!
Obs.: Esta é uma singela homenagem ao inesquecível Leandro Marques, a quem Deus só concedeu um corpo tão grande para ser capaz de abrigar seu enorme coração.
É também um reverência ao Bloco de Carnaval Inocentes, que reúne os amigos mais próximos e remotos do “Gordinho”, e que estiveram sempre ao seu lado, até o último momento.