O bom combate

Eu nasci engajado. Minha mãe fez um enorme esforço para me trazer à luz, decerto porque eu não queria nascer. Já pressentia que o mundo aqui fora tem ambição demais e humanidade de menos. Meu primeiro instante foi de constatação e o primeiro choro foi de rebeldia. E o engajamento cresceu comigo. Cresci debatendo-me contra o paradoxo da miséria num universo de fartura, sem entender os homens que, mesmo com a despensa cheia, subtraem dos outros o pão e a dignidade. Meu primeiro lápis não tinha ponta. Minha primeira lousa foram os sonhos. Minhas primeiras aulas foram as das pedras do caminho. Mesmo assim, dia a dia, com um alfabeto de uma letra só, eu aprendi a ler as angústias na alma das pessoas para escrever o bem no coração da vida. Aprendi amar as verdades, de todos os semblantes, de todas as cores. Amarelas, azuis, ou descoloridas, embora muitas delas esmaeçam em minhas mãos porque não fazem sorrir as crianças que passam fome. Há um sol lá fora, mas ele não aquece dentro da gente. Não há verdades nas pessoas que fazem discursos eleitoreiros, que se vangloriam das suas riquezas desmedidas.
Não vou desistir do meu engajamento, da minha vontade de acreditar no direito comum à dignidade. Em vez da indiferença, ter uma razão de ser. O caminho é pedregoso, mas eu vou em frente, encontrando os vencidos, os que fogem e até os que nem foram. Vou encontrando os que, maltrapilhos, ou bem vestidos, insistem em sua atitude de fuga.
A voz é muda, mas gritar é uma vontade. O grito mora em algum ponto dentro da gente, como um fogo sem labaredas. Um dia ele vai surgir, de repente, queimando o silêncio e a vontade vai descansar satisfeita. Basta uma letra só para gritar o inconformismo. O envelhecimento esvai a força, mas a vontade persiste. Não há sentido em apenas existir, mas em ter uma causa para estear os fundamentos da lógica de ser. A função do bom combate é uma causa justa para lutar. E há milhares delas, de respostas que não são dadas, de subterfúgios, milhares de sorrisos vazios, milhares de crianças com fome, de homens eleitoreiros, de meios homens. De não homens. De máscaras para desfazer, de cinismos para combater, de faces para fazê-las sorrir. Não entendo de fazeres sem causas. Nasci engajado. Vou morrer engajado.