Na Era do Rádio

Final de tarde. O sol se retirava de cena vagarosamente. O calor ainda era grande, o vento era calmo. Estava sentado em um banquinho. Tinha talvez uns oito anos. Nove no máximo. O pai estava ao lado do rádio. Ouvia atentamente. A voz grave do locutor anunciava com sensacionalismo: “Daqui a pouco, importante entrevista com o mago fulano de tal que vai falar sobre o fim do mundo. Fiquem ligados. Daqui a pouco, depois dos comerciais”.
Sentia medo o menino. Como assim? O mundinho iria acabar? A terra arenosa onde seus pés pisavam naqueles dias juvenis iria sumir? A bergamoteira em cujos galhos empoleirava-se tentando pegar a fruta maior, mais madura e mais doce desapareceria um dia? A goiabeira apinhada disputada ferrenhamente com os passarinhos também deixaria de existir? O mundo acabando assim desse jeito não fazia parte dos seus planos. A tarde caia e o radialista ia adiando a tal a entrevista aumentando ainda mais a angústia, a incerteza e a tensão que faziam o pequeno coração pular desordenadamente no peito. O pai deixou o rádio de lado e flagrou o medo no olhar do menino. Disse que não levasse as coisas tão a sério. Que não seria a primeira nem a última vez que o mundo todo seria mexido por catástrofes.
E, enquanto o rádio falava das maravilhas do Chá Jamaiquinha, ideal para quem quiser emagrecer sem dietas; do Café Haiti (tá fazendo na cozinha, tá cheirando aqui) e de Olina – Essência de Vida, contou uma longa história que iniciou em tempos imemoráveis. A terra era ainda mais verde, havia mais frutas, mais água limpa e mais animais. Os meninos corriam pelos campos. As mães cuidavam das casas. Varriam seus pátios, preparavam refeições à base de caça e de cereais. Os homens empreendiam grandes jornadas. Embrenhavam-se na floresta. Montavam campana para surpreender os animais. Certo dia iniciou-se um período de chuvas intensas. O sol, a lua e as estrelas ficaram cobertas por nuvens tensas. Chuva, vento, chuva e vento. Rios transbordaram, lagos encheram e os mares foram crescendo. Até que as águas dos rios, dos lagos e dos mares se somaram e cobriram toda a terra. E os meninos que corriam pelos campos, as mães que preparavam as refeições com muito gosto, os homens que invadiam as florestas e os animais que fugiam dos homens foram vencidos. A Terra virou um grande oceano.
Porém, alguém havia sido alertado pelo Criador. E este alguém muito espertamente montou uma arca e juntou casais de animais para procriar no futuro. E partiu desbravando as águas e as tormentas. Navegou tanto que um dia o sol voltou. E a terra foi lentamente suplantando a água e o mundo voltou ao que era antes. As bergamoteiras com o tempo voltaram a dar bergamotas, as goiabeiras se encheram de frutos e de pássaros. E os meninos voltaram a correr pelos campos, as mães ao fogão e os homens a perseguir animais. E o dilúvio virou lenda. E o mundo que havia acabado voltou a existir.
Acabou em água e acabará em fogo, remendou o pai. O fogo consumirá tudo um dia. Mas isso levará muito tempo. Virão outros verões, outonos, invernos e primaveras. Crescerás, constituirás família e o mundo estará aí aos seus pés.
O tempo passou depressa. O Chá Jamaiquinha nem existe mais. Hoje se anuncia que nosso planeta acabará um dia. O Sol explodirá dentro de sete bilhões de anos. Sem dó nem piedade. A Terra viverá frio intenso. As bergamoteiras e goiabeiras deixarão de dar seus frutos aos meninos e aos pássaros.