Mudanças

O mundo muda constantemente e continua mudando cada vez mais rápido. Abordo esse tema seguidamente porque ele está presente em quase todos os contextos. Quando não reconhecemos isso, ficamos divagando em um universo ainda pouco conhecido.
Algumas mudanças são imperceptíveis, outras que foram para melhor, outras não consideradas no conjunto. Mudanças físicas parecem mais lentas, mas não são, e as culturais esboroam a estabilidade que pensávamos tivessem. Houve muitas mudanças nos últimos dias e ocorrerão outras daqui a pouco, e quando a gente olha para o lado, o cenário é outro. Em alguns dias, as pessoas estarão diferentes, e aquele celular já é mais moderno. Daqui a instantes o mundo será outro e a nossa ansiedade acompanha esse acelerado ritmo.
As pessoas morrem, é claro, e isso nos obriga a ir a enterros vez que outra. Eu não gosto de ir a enterros. Nem ao meu pretendo ir. Mas, de vez em quando, tenho que fazer isso, por indispensável, e às vezes necessário dever humano. Dias atrás, tive que ir a um enterro. Que momento triste! Pessoas chorando, lamentos, dor no rosto de alguns e, parece, um pouco de culpa na consciência de outros. Enfim, estamos todos conectados e temos culpa pela vida boa ou ruim de qualquer um. Chama a atenção as tantas mudanças nesse instante último do ser humano.
E os sete palmos? Abriram um buraco que mal continha o caixão! Não vi jogar aquele tradicional punhado de terra! Quase ninguém vestia cores pretas. Alguns vestiam cores vivas e outros pareciam não estar em um ambiente triste. Não se guarda mais o luto, além de tantos outros comportamentos que me pareceram estranhos àquele momento.
O luto foi uma longa tradição. Por um período de dias, a família tinha que vestir roupas pretas, ficar em atitude de respeito, evitar rir e qualquer atitude festiva. Porém, aos poucos, a vida nos obrigou a esquecer dessa cultura. Hoje já tem gente que sai do enterro rindo na porta do cemitério! Alguns cemitérios estão em estado de abandono. Em uma cidade litorânea, cujo nome deixo de mencionar por entender isso como respeito aos mortos, houve uma inexplicável tragédia recentemente: quebraram dezenas de túmulos e quase destruíram o cemitério! Por quê? Como explicar uma atitude dessas? Que a veneração e o respeito pelos mortos caíram a zero; aliás, caiu abaixo de zero o respeito por quase tudo, inclusive das pessoas umas pelas outras. O respeito pelo outro é indispensável, mas caiu muito. Por consequência, a imprestabilidade humana cresceu, uma mudança que precisamos entender melhor. Estamos saturados desse desprezo pela condição humana, de tanto desrespeito por nós mesmos! Por quê? O que fazer? Como explicar isso? Eu, sinceramente, não sei. Parece-me que essa é uma das consequências dessas apressadas e incontáveis mudanças em nosso dia a dia…