Me prendam! Eu roubei de uma criança!

Vossa Excelência Juiz de Direito, Prezados Jurados e Promotoria Pública, aviso que abro mão dos préstimos de um advogado, farei minha própria defesa: Meritíssimo, Os filhotes do “Homo Sapiens Sapiens” são muito queridos, engraçados, inteligentes, espontâneos e hipnotizantemente fofos, mas sinto dizer que não comungo da opinião que as crianças são anjos na Terra, criaturas desprovidas de maldade e incapazes de praticar crueldades. Na verdade, principalmente quando reunidas em grupo, são capazes de atrocidades, em especial, no que tange à arte de humilhar o próximo, agora americanizadamente batizada como Bullying.
E isto é inegável, que o digam os adultos que, enquanto infantes, tenham sido gordinhos, gagos, míopes com óculos, desprovidos de beleza física, dentuços etc., e que hoje trazem consigo entranhadas em suas almas as cicatrizes deste mundo selvagem que é a convivência social na infância. Este comportamento deve ser uma herança troglodita de nosso lado animal uma espécie de seleção natural, como ocorre com os Leões por exemplo, onde os detentores de alguma fraqueza, seja doença, deficiência ou idade avançada são humilhantemente escorraçados do grupo.
Bom, estava aqui Tergiversando (enchendo linguiça) e tentando manipular o Juri Popular contra estas pequenas criaturas pra aliviar minha Pena, já que inocentado estou ciente que não serei, pois sou réu confesso. Acalmem-se, elucidarei o ocorrido, justificando que foi apenas uma expressão metafórica a respeito de uma experiência emocional pela qual passei um dia desses. Olhando um álbum empoeirado, me deparei com fotografia minha com uns cinco anos de idade, eu era ainda um cartão de memória, um Pen Drive quase vazio, pronto pra receber os bons e maus downloads da vida, que as vezes ainda vêm repletos de vírus. Vi aquele rosto leve e sorridente de um ser cheio de expectativas e planos em relação ao futuro. E tive uma sensação muito nítida de que, de certa forma, eu furtei daquele guri do retrato muitos deste sonhos, me senti de modo muito real, com diversas dívidas com aquele piá, e muitas delas, nunca terei como saldar. Mas por outro lado naquele tempo remoto do retrato, há 32 anos, quando me falavam em homens com 37 anos me vinha na cabeça um cara sisudo, quase triste, barrigudo e fumando, imutável e resignado com os resultados de sua vida.
Portanto, vou encarar esta divida na verdade como um confisco que foi feito, uma aplicação a longo prazo que pode ser restituída com juros e correção monetária, mas em outra Moeda, entregando para aquele menino um Quarentão bem alegre, metido a jovial e de bem com a vida, uma “metamorfose ambulante” que ainda espera muito da sua existência mundana.
Termino com uma frase de Mario Quintana ou Millôr (a internet não é uma fonte exata nem fidedigna): “Não tenha medo de errar, mas não faça da vida um rascunho, pode não dar tempo de passar a limpo” TOC TOC TOC, SILÊNCIO NO TRIBUNAL! O Juiz conclama o Juri pra da o veredicto: O Réu é declarado …….. CULPADO! Pena aplicada: condenado a buscar a felicidade com todas as suas forças, incessantemente, até o último dos seus dias, pois o passado passou, o futuro ainda virá, e o presente é só o que há !!! Sessão encerrada.