Máscaras

Como estive nos últimos dias muito ocupado colocando arame enfarpado nas minhas janelas e provando coletes a prova de balas devido ao aumento da criminalidade na Grande Porto Alegre, não pude escrever um textículo essa semana. Aliás, fui abordado na entrada de casa por dois ladrões, mas dessa vez não me roubaram nada, apenas pediram meu voto.
Bom, com vocês mais um texto da minha interina de luxo Fabrine dos Anjos:
A pessoa que eu achava que fosse mais feliz se matou, e eu demorei a escrever algum texto por medo de falar coisas que não sentia. Não quero mais falsidades na minha vida.
Ele era meu amigo há mais de 10 anos. Nos víamos nas férias, porque eu morava no Rio Grande do Sul e ele em Florianópolis. Tinha 43 anos, alto executivo de um banco da elite.
Lembro de cada dia juntos. Com ele eu podia brincar de rica. Não pagava nada pra mim, mas eu esbanjava junto. Cada real muito bem aplicado. Mas também fazíamos programinhas de estudante. Num reveillon, eu totamente dura, passamos a noite toda passeando entre a Praia da Pinheira e a Guarda do Embaú, em seu carro conversível, bebendo todas e conversando com a lua. Sempre ríamos muito juntos. Qualquer drama virava piada de doer a barriga em sua boca. Num carnaval na cidade do interior onde eu morava, em pleno festejo aparece ele, de surpresa, pronto para passar a festa da carne comigo. Inesquecível…
Então os anos passaram e eu vim morar pertinho do meu amigo. O banco no qual trabalhava era vizinho do meu apartamento. Às vezes nos esbarrávamos nas esquinas, sempre fazendo promessas de almoço que nunca aconteceram. Às vezes eu dava uma entradinha no Banco para dar um abraço. Mas correria da vida, na qual vai boa parte das nossas desculpas, abafou nossa amizade.
Certo dia recebo a ligação de uma amiga em comum, falando que meu amigo tinha morrido. Até então surtiam boatos de assalto, vingança, tudo, menos suicídio. Jamais passaria isso na cabeça de qualquer pessoa que o conhecia.
Fui no velório, cheguei antes dele… ninguém acreditava que de fato se tratava do nosso amigo. Só acreditei quando vi o corpo inerte, irreconhecível… não havia dúvidas de que tinha se enforcado.
Sem cartas de despedida ou qualquer desabafo com amigos… trancou o cachorro na área de serviço, fechou a porta do quarto, bebeu todas… se entupiu de remédios, amarrou o lençol no cano de ferro do chuveiro, pôs o pescoço e se foi para sempre.
Destrinchando a sua vida, vimos que havia muitas coisas que não sabíamos. Nem os amigos, nem ninguém. Isso ficou ecooando na minha cabeça.
De quantas mascaras somos feitos? Quantos sorrisos enrustidos distribuímos, quantas mágoas e dores carregamos sozinhos sem dividir o peso com alguém que nos ama?
A gente sempre se indaga o motivo de estar vivo, os amores que deixamos passar, tantamos lidar com as nossas dores… mas e a dos amigos? Poucas vezes temos a sensibilidade de nos preocupar com as dores de quem está ao nosso lado, com o sofrimento verdadeiro dos nossos amigos.
Ao cumprimentar alguém sempre perguntamos: “Oi, tudo bem?” e a resposta sempre é “Oi, tudo bem, e contigo?”. Aceitamos ela sem questionar… já chega os nossos problemas… Mas sabemos que na minha vida ou na tua nunca está tudo bem.
Meu aniversário está chegando. Vou receber cumprimentos com desejos sinceros de felicidade, saúde e amor. Vou ficar muito agradecida, mas minhas angústias, anseios e decepções ainda vão me perseguir… algumas vou conseguir dirimir sozinha, apenas algumas…
Não tenho medo de envelhecer. Tenho medo, sim, de envelhecer sem franqueza, sem assumir minhas dores, sem lutar pelo amor, pela sincera gratidão minha para com as pessoas que me fazem bem. Tenho medo de responder sempre que está tudo bem comigo enquanto meu mundo desmorona.
Não tenho qualquer tendencia suicida, mas tenho receio de sempre esperar meus amigos advinharem meus pensamentos e meus problemas para me darem uma palavra de conforto.
Tenho a sorte de me sobrar amigos para estenderem a mão ou darem o ombro, mas me falta sinceridade para dizer que preciso. Apesar de já ter sido socorrida muitas vezes por esses anjos disfarçados que estão na minha vida.
Depois que passei a morar só aprendi que muitas vezes precisamos nos bastar. Pôr a cabeça no travesseiro e ter uma conversa franca consigo mesmo, mas não nascemos para sermos só.
Tantas vezes penso nos meus amigos que teriam prazer em ouvir meus lamentos e que me fariam rir da tragédia… assim como meu amigo que não está mais aqui fazia comigo e eu poucas vezes fiz com ele.
Por isso, meus amigos que amo tanto… da forma mais sincera e pura que há, me perdoem os olhares e ouvidos desantentos. Às vezes pode me sobrar simpatia e faltar sensibilidade.
Em tempos de conversas instantâneas, mensagens pelo celular e e-mails, nos tormamos tão próximos e acessíveis, mas imensamente distantes das almas das pessoas. Dificilmente passamos do trivial.
Meu amigo que se matou estava todos os dias on line no meu computador, mas raramente trocávamos uma palavra além de cumprimentos ou carinhas engraçadinhas. Cada um queria guardar para si seus problemas.
Por isso rogo aos meus amigos pela sinceridade. Pela sinceridade minha e pela sinceridade deles.
Me dêem de presente de aniversário suas máscaras e eu lhes darei a minha.