Honestidade

A face mais destacada do mundo contemporâneo é a excessiva materialidade. Nunca o material entrou tanto pelos poros e expulsou tanto a moral. Hoje, mais do que em qualquer outro tempo, ainda que seja óbvia a sua necessidade social, a honestidade tem ares de tolice. Desonestos são legalmente punidos e, mesmo assim, alguns não perdem a sua multidão de admiradores em sinal de que, embora isso, continuam poderosos. Cometem crimes, são condenados (e certamente a Justiça baseia-se em provas suficientes), mas deles não se desgrudam seus núcleos de adeptos. Que explicação nós temos para a idolatria à desonestidade sentenciada? O que leva alguns a idolatrar os desonestos? Que valor terá a honestidade nesse caso? Pressupor o risco de erro do Judiciário é aceitável, mas simplesmente negar a correção da Justiça, com alardeada idolatria aos formalmente condenados, é, no mínimo, não coerente com o “status” de homens públicos. A honestidade não pode ser um comportamento de ocasião, de “foro íntimo”, mas um bem social de face pública, visível, escancarada. É a honestidade que se deve idolatrar.
Estamos necessitando, seriamente, redefinir categorias e classe sociais. Algumas como essas de “assalariados e burgueses”, além de gastas pelas intempéries da história, têm outras pernas e outras mãos. E outras faces. Raposas não têm ideologias. Elas ocupam tocas alheias para disfarçar. Com esse tipo de comportamento, muitas lutas de classes se justificam apenas pela necessidade de ascender. Não importam os fundamentos nem a escolha do processo. Não importam os meios. Veste-se roupa alheia ou alugada para participar da festa da elite, que aceita penetras por interesse, se não porque seus adventícios são da mesma estirpe. No mundo social, contrariamente ao mundo físico, os semelhantes se atraem.
Cada vez mais, precisamos separar administração pública de politiquice. Aquela serve ao povo, esta para ocupar espaços de poder social e financeiro. Para servir a si mesma, a política pela política. As exceções certamente existem e, claro, há políticos bons e honestos. Não podemos duvidar totalmente da condição humana. Porém, a verdade é que, embora alguns maus políticos tentem nos iludir, com argumentos falaciosos e cínicos, politiquice e boa administração pública são inimigas figadais, mas se confundem nos sofismas dos discursos eleitoreiros. Infelizmente, desde velhos tempos, os sorrateiros aprenderam a iludir a plebe com argumentos vazios, às vezes ilógicos, disfarçados, de “Estado democrático”, etc. Povo inculto serve às manobras dos desonestos. É preciso muito cuidado com aqueles que propõem soluções acima do possível. Lobos com peles de cordeiros vivem à porta dos órgãos públicos, e dentro, à espera de dar o bote em postos de comando. Há meio mais fácil de ganhar dinheiro neste país?