Falar sobre suicídio exige cautela

Por Sander Fridmann

Falar sobre suicídio exige cautela, competências específicas e muita responsabilidade. Sabemos que nos momentos históricos em que o tema do suicídio se viu muito debatido, por fatos envolvendo pessoas ou personagens – portanto, reais e até mesmo ficcionais! – observaram-se em resposta importantes epidemias de suicídio! A disposição para falar de suicídio amplamente nos meios de comunicação e até mesmo em escolas (!!!), pode ser sim a antessala da tragédia anunciada.

É possível que falar a respeito possa ser o início de um necessário enfrentamento coletivo ao problema do suicídio? É possível que o veneno letal de uma cobra perigosíssima se torne um importante remédio capaz de salvar vidas? Claro que sim! Mas você estaria disposto ou disposta a entregar seus filhos como cobaias para pesquisar a dose certa do veneno para que, em lugar de matar, cure? Quantas cobaias terão morrido antes de aprendermos o suficiente para transformarmos o veneno em remédio, ou quem sabe, em vacina?

O desafio do enfrentamento do problema do suicídio tropeça em muitos obstáculos, preferencialmente atribuídos a dificuldades de manejo médico, familiar e político-institucional. Mas devemos reconhecer limitações de fundo filosófico, ideológico, moral, religioso e econômico comumente negligenciadas ou mal-abordadas nas pesquisas, que raramente são conduzidas por equipes e programas transdisciplinares abrangentes. Mesmo assim, avanços clínicos parecem contabilizados de tempos em tempos, com novas publicações e descobertas científicas.

Uma série de artigos publicados sobre o assunto nas páginas do Jornal Bons Ventos bem como no site LItoralmania dão uma boa idéia da amplidão do tema e dos elementos relevantes para sua abordagem cautelosa.

A evolução da forma como as pessoas se vinculam socialmente, e constroem suas redes de solidariedade, foi especificamente investigada por Emile David Durkheim, em relação ao suicidio, no início do século passado. Os laços nas sociedades tradicionais se mantêm por relações de parentesco e compadrio. Nas sociedades mais modernas, através da qualidade do trabalho, e da contribuição técnica e econômica, que cada um pode oferecer ao desempenho e bem-estar uns dos outros. No primeiro caso, a mútua “fiscalização” em relação aos comportamentos, atitudes e crenças socialmente aceitáveis, restringe as liberdades individuais. No segundo caso, em que somente se exige competência profissional e adesão às leis para participar da vida social moderna, sem outras precondições, as pessoas se sentem mais livres para buscar, cada um, seu caminho. Entretanto, este paraíso das individualidades parece ruir quando a economia desanda, e o valor pessoal fundado em trabalho e renda não tem mais meios para se sustentar. Nestes casos, as pessoas que não “transicionaram” totalmente entre os valores tradicionais e os modernos, podem estar melhor abrigados pelos cuidados e apoio familiares e sociais, pelos quais retribuem através da sustentação e compartilhamento da fé e valores do grupo social de origem. Quando esta retribuição não é possível, o constrangimento para buscar suporte emocional e econômico pode parecer insuportável. Entretanto, por mais que os grupos tradicionais possam parecer mais intolerantes e exigentes, quanto a valores e crenças do sujeito que necessita de apoio, este é o grupo que tende a oferecer maior suporte, em comparação com os mais individualistas – estes, em geral, filhos modernos face aos pais idosos e/ou doentes.

Mesmo assim, sociedades que “transicionaram” entre estas classes prevalentes de valores sociais, podem ser menos tolerantes com as individualidades daqueles que voltam a depender do apoio social.

Na verdade, esta é uma construção exemplificativa, que não deve ser generalizada como a causa específica necessária das taxas elevadas de suicídio numa determinada cidade, instituição, organização, cidade, bairro, escola, Estado ou País.

Uma vez identificado o problema em escala social, deve ser enfrentado com expertise, ciência, criatividade, e muito cuidado. É da investigação sistemática e progressiva, caso a caso, que a compreensão e a solução do problema de cada grupo poderá ser encontrada, com eficácia progressivamente maior.

  • O Dr. Sander Fridman psiquiatra pela Associação Brasileira de Psiquiatria e pelo MEC, Mestre e Doutor em Psiquiatria pela UFRJ, Especialista em Psiquiatria Forense pela Conselho Federal de Medicina, um dos pioneiros da Psicoterapia Cognitiva no Brasil, Master em Hipnose Ericksoniana, pós-graduado em Neuropsicologia pela ULBRA, 8 anos de atendimento voluntário a pacientes neurológicos e neurocirúrgicos com problemas psiquiátricos associados (Neuropsiquiatria) no Serviço de Neurologia e Neurocirurgia Dr. Mário Coutinho, no Hospital Beneficência Portuguesa de Porto Alegre, um dos criadores e diretor científico do Serviço de Doenças Afetiva – Ambulatório das Depressões (SEDA) da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, responsável pela Agenda de Depressões do Centro Médico Adventista Silvestre de Botafogo, no Rio de Janeiro, Pós-Doutorado em Direito (Teoria da Prova aplicada à Prova Técnica – Causas Periciais da Ineficácia da Lei da Guarda Compartilhada). Em seu Doutorado em Psicologia, pela Universidade de Santiago de Compostella, dedicou-se ao tema do Assédio Moral no Trabalho (Assédio Laboral). Estudou elementos de filosofia, teologia e trabalho social na Universidade de Bar Ilan, em Ramat Gan, Israel. Atuou em vilas e favelas de Porto Alegre em estágios concursados em Saúde Materno-Infantil pela Secretaria de Saúde do Município de Porto Alegre e pelo Dpto. De Pediatria da UFRGS, com a Profa. Dra. Hebe Tourinho. Organizou vários cursos especializados na área de Pediatria para o Serviço de Pediatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. No Rio de Janeiro, foi o psiquiatra infantil de referência da Unimed para toda a região metropolitana, entre 2014 e 2018. Atende todas as idades, e, também, casais, em várias cidades, inclusive Osório.