Há muito tempo que o homem é obrigado a ver suas tragédias. Algumas provocadas pela natureza ou acidentais e outras provocadas por ele mesmo. Antes, tinham a chance (ou azar) de assistir, somente aqueles que presenciavam algum fato. Com a tecnologia de hoje em dia, podemos ver (às vezes ouvir) inúmeras tragédias, sejam elas coletivas ou individuais. A mídia cada vez mais preparada e "a postos". A curiosidade pela tragédia e dor transformou celulares e câmeras – sejam elas de circuitos internos ou as digitais domésticas – em janelas para o espetáculo do sangue e da dor.
Soa forte o primeiro parágrafo, mas há de se discutir até que ponto temos privacidade. Já não basta desrespeitar momentos íntimos de alegria, agora querem vender também a tragédia. Noticiar tragédias, acidentes e crimes é muito importante. Não se trata disso a discussão. O fato é continuar narrando a dor de quem sofreu com estes acontecimentos.
Não precisa pesquisa alguma para achar um exemplo desta espetacularização da tragédia. A cobertura jornalística não busca mais o fato e lições que ele possa trazer. Ela busca mostrar a dor de quem sofreu com tais tragédias, da maneira mais vendável possível, se possível (redundância proposital).
O filho de Cissa Guimarães morreu atropelado em um túnel do Rio de Janeiro. Nem ele, nem quem o atropelou deveriam estar no local do atropelamento. O fato de ele ser filho de uma pessoa famosa dá uma dimensão maior ao ocorrido. Até aí tudo bem. A notícia devia chegar até este ponto. No máximo falar sobre o que acontecerá com o motorista. E deu.
O problema é divulgar e atualizar sites com fotos do velório, da cremação e da mãe e o pai da vítima próximos ao caixão a cada cinco minutos. Só faltou um narrador e um comentarista. Isso é sério. Precisamos respeitar os momentos sem câmeras ou coberturas midiáticas. Noticiar um fato, triste ou alegre, é da vida. Não se pode também enganar as pessoas sobre a realidade que as rodeia. Mas explorar a dor e a tristeza já é demais.