Eu defendo a Dilma

Quando a candidatura de Dilma foi lançada, soube instantaneamente que ela sofreria as consequências por ter a “audácia” te tentar ser a primeira mulher com chances de ser eleita. Em contrapartida, vi instintivamente milhares de mulheres levantarem-se a seu favor. Fiquei feliz, por eu mesma, por Dilma e o Brasil que tinha a chance de se mostrar mais aberto com nós, mulheres. Como em todo mandato, teve problemas, teve corrupção, sim! Mas ainda não encontrei governo que não tivesse.
Não bastava ser “presidenta” uma vez, Dilma teve a “audácia” de ser duas. Sofreu, ainda sofre, leva o peso de uma nação porque é mulher e sofre ataques não apenas no âmbito político, sofre onde mais dói, onde nenhuma mulher deveria sofrer. Quando atacada, a principal representante desse país, não é “incompetente” ela é uma puta, vadia, filha de rameira, que deveria morrer.
Dilma sobreviveu à ditadura, mas ainda precisa sobreviver aos ataques tão brutais. Dilma sobreviveu à ditadura, mas precisa sobreviver aqueles que querem a intervenção militar sem conhecer a história.
Precisou se impor e continua precisando, em cada reunião, em cada tomada de decisão, para ser respeitada simplesmente por ser mulher. Se corrigiu os seus subordinados e exigiu ser chamada de “presidenta” não foi porque é “burra”, mas para que cada um que a chamasse não tivesse dúvidas de que era uma mulher que estava lá e que ocupava o cargo mais alto do país.
São os “cidadãos de bem” que faltaram as aulas de política e história, que saíram as ruas e pediram “impeachment” sem nem saber o que isso significa. Até ai tudo bem, direito de protestar todo mundo tem. Mas são esses mesmos cidadãos tão puritanos que andam em um carro com a MAIOR AUTORIDADE DO PAÍS de pernas arregaçadas, porque ela é mulher e isso é o que a cabe.
Nunca fui a pessoa mais engajada politicamente, sempre tentei me manter informada, mas nunca busquei uma filiação partidária. Tento me manter com um espírito neutro para informar, que cada pessoa seja capaz de tomar sua própria decisão, embora nunca tenha escondido minha simpatia com as ideias de esquerda. Mas o que vi com Dilma, foi além da razão, essa mulher me fez querer abrir a boca, me fez querer mostrar que o mundo não é assim tão lindo com nós que constantemente ouvimos que “machismo não existe”.
Estar em locais de poder público é ouvir que “se a presidente morresse o país respiraria aliviado”. Essas pessoas que se dizem tão honestas não hesitam, nem sequer por um segundo, na hora de dizer que “bandido bom é bandido morto”, que “direitos humanos são para humanos direitos”. Não pensam na honestidade quando pedem “só um examezinho” para a mãe, padrasto, tia, papagaio e passam na frente de outros, que estão na fila do SUS também, apenas porque conhecem o político X. Não se importam com o andamento do país quando fazem campanha eleitoral em troca de cestas básicas, vendem votos. Essas mesmas pessoas, tão integras aparecem todo dia na minha frente e não estão nem pouco preocupadas em ter honestidade quando isso as favorece. Foram e talvez sempre sejam esses “cidadãos de bem” que fizeram o “jeitinho brasileiro” ficar mundialmente conhecido.
Hoje, foi só mais um dia em que eu cansei de ouvir que o “Brasil vai virar Cuba”, país esse que inclusive deu um tapa na cara da sociedade quando foi o primeiro a eliminar transmissão materna de HIV. Hoje, foi só mais um dia em que vi Dilma levando uma culpa que não a pertence. Nunca, jamais tirarei de suas costas erros que sei que foram seus, mas a darei esse peso sabendo do que esperei dela, sabendo de sua história e sabendo das condições do país em que vivo. Então “presidenta”, peço que a senhora aguente, se não for politicamente, que seja por todas nós brasileiras, mães, trabalhadoras, senhoras do próprio destino e que a conhecem.

Por Esmeraldina da Silva