Entrincheirados no front, esquecemos o porquê

Via de regra, toda guerra é ruim. Mas embates são inevitáveis, e ocasionalmente, até necessários.
Todo confronto tem suas baixas. E em todos lados envolvidos. A diferença é que os vencedores contabilizaram menos perdas. Mas também perderam, e as vezes tanto quanto ou só um pouco menos do que os derrotados.
Paradoxalmente, sobreviver à um combate pode ser o maior castigo ao vencedor. Explico:
Na guerra, a única lei é manter-se vivo, e matar, e quanto mais melhor. É um período de exceção, onde todas as regras de convívio que regem a sociedade são deixadas de lado em nome da batalha travada.
Para sobreviver tudo é relevado e perdoado previamente, e o soldado se aproxima em sua essência a um animal selvagem. Gradualmente vai apagando de seu cérebro sua civilidade, erudição e por fim sua própria humanidade.
Findada a luta é hora de retornar a vida. E aí está a ironia. Não há brilho no triunfo. Não há glória na vitória. Há dor e escuridão e cacos a serem colados de uma alma destroçada pelos horrores bélicos.
É extremamente comum o Transtorno de Estresse Pós-Traumático em veteranos de guerra. Muitos não conseguem se tratar a tempo e acabam sucumbindo ao vício, alcolismo e até mesmo ao suicídio. As memórias amargam o gosto do sucesso. Não parece mais possível voltar a ser humano.
Vivemos um momento de luta no Brasil, e nesse momento isso é imprescindível. E, ao contrário dos veteranos de guerra, podemos sair melhores do que entramos no embate.
Uma pedra só é polida através do atrito com outra. Mas, assim como podemos Aparar nossas arestas nossas arestas confrontando nossas divergências, podemos errar o ponto e nos arruinarmos, uns aos outros.
Diferente das tropas militares em campos de disputa, não podemos nos perder de nossa essência, porque isso tudo só terá valido a pena se passarmos por isso sadios o suficiente para participarmos da reconstrução.
No final de semana, depois de ler, assistir e participar de inúmeras discussões, senti necessidade de restaurar o que há de melhor em mim para poder seguir na peleja.
Assim como os soldados que leem as cartas de suas famílias entrincheirados no front, eu também precisava me auto exilar em algo de bom no meio desse mar de coisas ruins.
Então fui assistir ao show de Nando Reis, e ele se negou a falar sobre corrupção ou política.
Sequer tocou no assunto. Falou de tudo. De como suas músicas foram compostas, que tem um filho que mora em São Leopoldo, dos Titãs, e falou de amor… Amor de homem, de mulher, de pai, de mãe, de filho e de amigos.
Ele é um alienado por não se engajar no momento e embate cívico atual? Não.
Há momentos para cânticos e tambores de guerra e há momentos para melodias de amor.
E era justamente isso queria isso, só isso. Queria um trégua, bandeira branca, queria um tempo para não desaprender quem eu sou.
Aprendi nessa noite, ouvindo belas canções, que toda luta tem uma causa, mas toda causa para ser digna deve ser embasada no amor.
E o guerreiro que acredita no ideal pelo qual combate é sempre o mais bravo e aguerrido soldado.
Era noite de lembrar isso, o verdadeiro propósito de tudo:
– O amor, e não o ódio.
E, pronto, era o que eu precisava para lembrar pelo que realmente luto.
Estou pronto para mais uma semana de controvérsias e debates. E que venham Moro, Lula, Dilma e o Patati e o Patatá….
E cuido para compreender e não me esquecer o porquê dessa luta. Espero ser por honestidade e competência na gestão pública e não uma luta de esquerda, direita, canhota ou ambidestra.
Mais importante do que não esquecermos a verdadeira razão pela qual lutamos, é não perdermos a razão ao defenda-la.