Elvis Presley

A turminha sonhava. E o sonho era um só: aventuras. Amorosas de preferência. Aventuras é que menos tinham. Então eram idealizadas. Vividas nos mínimos detalhes dentro dos quartos, das salas e nas garagens, enquanto pais, mães e irmãos ali não estavam. As meninas faziam parte da turma e dos sonhos. Aos sábados, então, que eram longos, tinham tempo para ouvir uma música, tomar um café preto, comer um resto de pão, conversar, caminhar pela cidade a esmo.
Encontrar as meninas da turma era um dos programas. Elas iam se juntando aos poucos. Em dado momento ficavam na frente da casa de uma delas, brincando, sorrindo e aguardando o resto da turma. E contavam piadas. Tudo com um só objetivo: conquistar alguma atenção. E nas janelas, de olhos atentos, irmãos mais velhos e pais vigiavam suas virgens.
No início da noite, elas se recolhiam. Para eles tudo ficava mais triste, mais sombrio. Um dos meninos, o Coiote, parecia ser tomado pelo desespero quando o sol dava lugar à lua. Se confinava no quarto e ligava uma vitrolinha. Invariavelmente, lágrimas escorriam pelo seu rosto molhando a barba vermelha e mal aparada. Falava o nome dela e chorava. Coiote era quem mais devaneava. Era dramático. Sonhava com os olhos abertos. Repetia diálogos inteiros que teria com sua pretensa amada. Ela era desajeitada. Mas para ele era a mulher ideal, a mãe de seus futuros filhos. Ele sofria sempre que pensava nela. No íntimo sabia que seria rejeitado. Ele queria ser Elvis Presley. Ela Priscila Presley. Mas, ela desejava outro Elvis ao seu lado. Era o Vermelho, que dançava bem. Cabelo liso, vestia uma jaqueta de napa imitando couro. Tinha botinhas estilo cowboy. E um disco do Elvis.
Alguns dias antes de uma reunião dançante, Coiote preparou um repertório enorme de diálogos que teria com sua Priscila. Treinou todos os rebolados. Não tinha como dar errado. Na noite da festa humildemente a convidaria para uma dança. Elvis seria o fundo musical. Primeiro Blues Suede Shoes. Depois quando estivesse encantada com seu gingado, Love me Tender. E aí seria amor para sempre.
Eis que chegou a noite esperada. Priscila Presley havia escolhido a melhor roupa. Nem parecia aquela menina desajeitada. Uma tiara rosa na cabeça e os cabelos bem alinhados revelavam que ela havia investido algum tempo na preparação para a festa. Coiote estava nervoso. O cabelo rebelde não aceitava o topete que ele tanto queria impor. Quando secava ganhava ondulações. E isto era um verdadeiros pecado. Seu orçamento apertado não permitia que comprasse brilhantina, gel ou qualquer destes produtos que deixam a cabeleira armada.
Havia comprado uma enormidade de Plets de Hortelã. Reconhecidamente tinha mau hálito e não queria que este pequeno detalhe atrapalhasse a conquista. E ficou prá lá e prá cá. Indeciso, olhava pra ela. Porém, havia coragem de convidá-la para dançar. E veio Elvis e ele paralisou. Repentinamente destravou e pensou em avançar. Mas, Priscila correu em direção ao Vermelho, que estava perto, e o pegou pela mão. E saíram pela pequena garagem dançando Tutti Frutti. E depois Sylvia. E Coiote ali com seu rosto vermelho. Suava. Não acreditava.
No fundo mantinha alguma esperança. No final poderia ainda reverter o jogo. E Priscila, acabaria a noite dançando com ele como o planejado. No entanto, quando o Rei cantou Love me Tender e a cabeça dela repousou sobre o ombro de Vermelho e ali permaneceu como se estivesse descansando, os olhos de Coiote foram inundados. E saiu correndo, segurando o choro. No lado de fora, longe dos olhos dos outros, sentou numa pedra e ficou olhando para a lua. E sua dor era tanta que calou. Nenhuma palavra saiu da boca por muito tempo. Vi a cena e não pude interferir. Apenas um leve e discreto abraço pude ofertar. Saí dalí com a certeza de que dentro de alguns dias estaria bem novamente. E faria outros planos elegendo outras Priscilas para seus devaneios.
Lá dentro a festa continuava animada. Dividido entre um que sofria e o outro que dançava, nada mais podia fazer além de ouvir a música que não parava. Esperava o fim da festa quando ajudaria a recolher a vitrola, a luz vermelha e os discos de Elvis.