De transpiração

Dizem que a arte é um por cento de inspiração e noventa e nove por cento de transpiração, mas não disseram a ordem em que ocorrem. Não disseram que a inspiração, aquela que redunda em arte, quando redunda, não vem por acaso. Primeiramente, se usa os noventa e nove por cento de transpiração para, com isso, às vezes, encontrar um por cento de inspiração. A transpiração vem antes porque a inspiração tem que ser escavada com unhas e dentes. A sabedoria é patrimônio das pessoas felizes. Ela esteia a arte. A sabedoria é o chão, a terra, o céu e as nuvens. As estrelas e as flores. E os vagalumes. Sabedoria e felicidade se apoiam. Torna-te feliz que serás um sábio. Torna-te sábio que serás feliz. Não se deve justificar as próprias fraquezas com a desvalorização do esforço alheio. Resultado não cai do céu. Vencer não é privilégio.
Dizer que “arte é aquilo que os artistas dizem que é arte” não é uma afirmação dos que aprenderam a sorrir internamente. Poderá ser dos que têm medo de voar e se contentam em tirar fotografia das nuvens. Dos que ficam na base da montanha fingindo apreciar-lhe o topo. A verdadeira arte cobra o alto preço da transpiração.
Os tempos precisam renascer. Novos Séculos de Luzes. Sair das trevas, reiluminar a escuridão. Faltam videntes, escaladores de mundos, seres que voam acima das nuvens. Não faltam cinzéis; faltam mãos aquecidas pela vontade de ser. Não faltam sonhos. Faltam anseios e contadores de estrelas. Faltam sonhadores e poetas.

Onde vivem os poetas
No limbo escuro das eras
Nessas ribeiras de estio?
Será no gume dos seixos
No verde-musgo das pedras
Nas grotas fundas dos rios?

Onde desbotam os poemas
Nestes tempos tão vazios?
Nesses lapsos de ternura
Sem os amores no cio?

Estão vendendo vulgaridade nas esquinas. Os tempos não são de olhar as estrelas; elas, hoje, são apenas astros, outro mundo para o futuro incerto. Quanta transpiração desperdiçada!