De joelhos

Um dia, irá restar apenas o instante, o último. Ínfimo, esvaindo-se ao pé da cama. Instante de silêncios e murmúrios, de dizeres inaudíveis. As mãos inúteis, as imagens perdidas, fugazes, a buscar luzes nas janelas, nas portas, nas faces. Luzes ofuscadas, sem reflexos, sem brilho. Só luzes. Dia de anseios, moribundos. Respirar de súplicas e cortinas nos olhares. Dia de abjurar, de genuflexão total.
– Oh, Deus, por que me fizeste tão pouco! Conceda-me a glória de viver mais um instante. Foi tudo tão rápido, tão curto. Tempos perdidos, corridos, escorridos.
Um dia, restará somente o instante final, um sol minguado a se esconder atrás dos montes. O último poente, sem cores. A gente não será mais. Ficarão os perdões inúteis. As flores nos jardins, e não haverá jardins, a esperança atrás da porta, e não haverá portas. O verde nas florestas, e não haverá florestas. Não haverá caminhos. Os olhares não serão vistos, os sentires estarão mudos. Um dia sem manhãs, sem presente; só de passado. A gente irá querer acariciar e não haverá sentir; querer amar e o amor esvaiu-se, ver as ondas e os olhares se perdem. Sem carícias, sem ondas, sem mares, sem amares.
O último instante chega depressa e traz sombras. Fecha a porta para o vazio. Perdoa enquanto ainda suplicas, ama enquanto ainda podes, olha o mundo com os olhares que ainda tens. Olha profundo.
Um dia, o tempo acabará…