De crises

Além da crise moral camuflada sob a “crise política” e a “crise econômica”, há outras crises subjacentes que precisam ser consideradas. Entre essas, a crise de banalidade, em que o nada vem tomando o lugar de quase tudo. Endeusamos o vazio. Transformamos a vulgaridade em essência, promovemos o inexistente a rei das substâncias.
É uma crise de valores, de falta deles, de ausências materiais e imateriais. Confundimos a simplicidade com picuinhas e trocamos aquela por estas. As inutilidades, físicas e não físicas, entulham a casa toda e ainda saem a passear conosco pelas veredas do impalpável.
Os apaniguados fartam-se, com exagero, da benesse material e vivem com a casa cheia de tarecos inservíveis e temporários. Beneficiam-se de excedentes, e não tendo mais o que comprar, escondem o dinheiro que sobra, fortunas, em bancos e sabe-se lá onde. Parece óbvio e um direito de todos, mas o que está sendo esquecido é que o paiol, sobretudo quando abarrotado com excedentes alheios, encarna uma função social. Vacas presas não rendem o leite que todos precisam e elas são resultado do trabalho comum. Ninguém tem energia para ganhar tanto, se não que, alguns, com apoio do sistema, ficam com vacas dos outros. O dinheiro é um bem resultante do esforço social. É uma injustiça aceitar que alguns fiquem com a maior parte. As vacas presas nos currais do poder deixam milhares de crianças com fome.
Os tempos são efêmeros, a vida também. Precisamos vivê-los desse mesmo modo. Parece compensador substituir a dureza dos caminhos pela segurança aparente das veleidades. O chão é uma verdade dura e pode machucar nossos pés; então o trocamos por nuvens, impalpáveis e ilusórias, mas com forma de realidade. Em vez dos valores morais, engrandecemos-nos com os valores tecnológicos, porque, com estes, não precisamos mais ir ao mundo; ele vem a nós, com todo o seu reino de inconsistências. Sem pedras, sem materialidade, compensando as durezas da vida. Uma tentativa vã de dar sabor ao insípido. O que virá por consequência dessa crise de essencialidade a gente não sabe…
Houve uma época em que imaginávamos um ócio social benéfico para todos; as máquinas iriam fazer o nosso trabalho e nós ficaríamos a cochilar na rede da varanda. Bons tempos, queríamos, e essas utopias compensavam os sonhos ideológicos. Aconteceu: as máquinas, de fato, tomam o nosso lugar; essas telinhas cheias de luzes e de vazios conceituais estão ocupando o lugar dos valores não físicos. Estamos trocando o tamanho das pernas pelo da barriga. E sabe-se lá o que estamos fazendo com o cérebro. Os conceitos, dos singelos aos mais profundos, se desmancham em veleidades. Os significados perderam o significado. Vivemos de dois furinhos nas paredes. Contentamos-nos com humores insignificantes, frases inconsistentes e imagens de vaidade. Com sacos vazios que ficam em pé. Em pleno sentido, se é que isso ainda existe, se faltar energia, o nosso mundo acaba.