Claudio Domingos

  • Homem

    Homem

    Homem, ser das reentrâncias, Vestido de dessaber Por que procuras no nada Nesses teus próprios vazios As belezas que não vês Nas águas enamoradas Nas curvas lindas dos rios? Onde estão tuas verdades? Não estarão nos olhares, Nas faces tristes de medo Nos teus sofridos instantes Nessas buscas de viver Nesses mares de migrantes? Quem […]


  • A montanha

    A montanha

    A montanha, passo a passo, Eu subia. Sem alentos. E nos meus sofridos braços As minhas dores levava Ia deixá-las lá em cima Nas grutas mais escondidas Jogá-las, lá, nos penhascos Essas angústias da vida E flores também levava Flores lindas, na verdade Umas, flores de lembranças Outras, flores de saudades Ia plantá-las nos montes […]


  • O mendigo na calçada

    O mendigo na calçada

    Nas calçadas, à luz das sombras, Sento-me sob essas marquises de desamparo. Ali, desobrigado de formas de ser, A olhar os transeuntes de baixo para cima, Vejo as misérias de todos nós, Misérias infinitas, a nos tocar com suas texturas reais. Ali, eu e meus olhares pulsantes Vemos seres indistintos a carregar nuvens O chão […]


  • O roteiro

    O roteiro

    Paulo anotou o que viu em forma de roteiro. Anotou cada momento, como se fosse reescrevê-lo, acrescentar detalhes oportunamente. O Inspetor os lê: Onze horas da noite. Estou no meu quarto, no segundo andar. Da minha janela, vejo um homem gordo na calçada. Usa chapéu e fuma, impaciente. Onze e dez. Um carro para. Outro […]


  • O Natal

    O Natal

    A música de Natal vem do campanário e se esparge sobre o lugarejo. Mas o dia está nublado, silencioso. As árvores estão imóveis, em expectativa. Não há sequer uma brisa. A música diminui e para. O silêncio torna-se quase absoluto. Nem os pássaros cantam. Os nimbos se acumulam nos topos das montanhas. Há uma espera […]


  • De joelhos

    De joelhos

    Um dia, irá restar apenas o instante, o último. Ínfimo, esvaindo-se ao pé da cama. Instante de silêncios e murmúrios, de dizeres inaudíveis. As mãos inúteis, as imagens perdidas, fugazes, a buscar luzes nas janelas, nas portas, nas faces. Luzes ofuscadas, sem reflexos, sem brilho. Só luzes. Dia de anseios, moribundos. Respirar de súplicas e […]


  • A Flor e a Pedra

    A Flor e a Pedra

    Uma pedra e uma flor conversavam. A pedra disse: – Flores são seres frágeis. Por que escolhestes ser flor? – Eu não escolhi. Eu nasci flor. – É melhor ser pedra! – Pensas assim porque és uma pedra. Cada um pensa segundo a sua condição. Eu sou feliz sendo flor. – Mas, o que há […]


  • A teia

    A teia

    O sol da manhã aquece a praça. Um velho anda entre as árvores e vê uma aranha, que tece, sobe, desce e trama a urdidura da teia. Refaz as malhas. Nos fios brilham gotas de orvalho. Um inseto, em voo distraído, é apanhado. A aranha aumenta a sua faina de ir e vir, ágil. Fabrica […]


  • Não saberes

    Não saberes

    Diz-se que o ser humano é o único animal que sorri. O riso é a marca do homem. Porém, o sorriso humano é apenas diferente do sorriso dos outros animais. Sorrir e chorar são atos do mundo. Todos rimos e choramos, temos dores e alegrias. Falta-nos, isso sim, a capacidade de entender os sorrisos e […]


  • Verdades e mentiras

    Verdades e mentiras

    Dois homens, decididos a começar vida nova e a ganhar mais dinheiro, estabeleceram-se como vendedores autônomos, com uma barraquinha, cada um em um ponto da cidade. Uma pessoa chegou à tenda do primeiro e perguntou: – O que vendes aí? – Verdades. Cada um destes envelopes contém pelo menos uma verdade. – Mas, verdades são […]