Ainda prefiro o recreio

Há duas semanas venho querendo contar para vocês das minhas mini-férias mas os políticos brasileiros não deixam. Além de dinheiro, desviam meu foco.
Mas, enfim, agora conseguirei escrever sobre algo realmente relevante :
– Minhas férias .
Nem sempre fui um aluno relapso e pouco exemplar. Tive meus tempos de glória na classe.
Não me lembro ao certo quando passei para a turma do fundão , mas de uma coisa tenho certeza, sempre preferi o recreio .
Quem não gosta de recreio bom sujeito não é. Já sou gente grande, (só na idade, no tamanho continuo pequeno) e agora não tem mais a sineta para tocar a hora da felicidade, a hora do intervalo.
Eu sempre quis ser o dono da sineta, esse era meu sonho, eu iria bater o sino para o recreio umas 5 vezes por dia. Talvez até iria fazer um “ recreiaço” e fazer uma pequena interrupção para se ter um pouco de aula.
Talvez esta tenha sido uma das razões por eu ter optado em ser ser um profissional liberal . Seria a chance de eu ser meu próprio chefe, decidir o meu próprio recreio.
Doce ilusão.
Realmente não tenho um chefe, tenho centenas. Cada um dos meu pacientes é um chefe a quem devo me reportar. Pior do que isso, virei escravo do pior dos senhores feudais, ou coronéis, eu mesmo. Tem que se ter muita disciplina para se permitir o descanso . Eu que desejava tanto ter a sineta do recreio, não aprendi a usá-la, parece até que a extraviei.
Me tornei um semi- workaholic, viciado em trabalho. Mas não quero falar de trabalho, quero falar de férias.
Então me dei de presente uma mísera meia dúzia de dias de folga , para desfrutar com quem gosto.
O que aconteceu?
Nas primeiras 24 horas sempre tenho peso na consciência, como se não fosse merecedor nem digno daquele descanso. Depois quando começo a me sentir à vontade os dias começam a andar tão rápido que fazem o jamaicano usain bolt parecer um cágado manco . Os dias durante as férias deviam receber multa por excesso de velocidade.
Além de maravilhosas as férias mudam o foco da nossa preocupação. Se, trabalhando, fritamos nossos neurônios pensando em horários a cumprir e tarefas a executar, na folga só precisamos nos preocupar com o embate entre a nossa vontade de recuperar o sono perdido e a de aproveitar o máximo do tempo para se divertir.
Mas às vezes sou tão dorminhoco que minha dúvida é só se devo dormir tarde à noite, ou até mais tarde de manhã.
Foram dias sensacionais com companhias igualmente especias, de tal forma que até agora estou em luto pela morte das minhas férias. Faço até minuto de silêncio em homenagem.
Mas confesso que amo meu trabalho e a correria do dia a dia. Não fico contando os minutos no relógio para que termine meu turno de trabalho. Consigo me realizar servindo ao próximo com meu ofício e sendo reconhecido por isso.
Afinal, a vida é muito curta para se ser contemplada só nas folgas, como se houvesse o momento da felicidade, pausas para ser feliz em meio à uma rotina de sacrifícios e privações.
Mas às vezes dá vontade de virar Hippie e ir para Guarda do Embaú vender cachimbinho de durepox . Porém , o ar condicionado, o wi-fi, a sky, minha poltrona reclinável e o buffet livre de sushi me lembram que ainda não estou pronto.
Shakespeare dizia que se o ano inteiro fosse de férias alegres, divertirmo-nos tornar-se-ia mais aborrecido do que trabalhar.
Até pode ser meu caro William, mas, cá entre nós…
… Falta muito para bater hein?