Ai… Esses cinquenta e tantos anos

Passei lépida e faceira… Pelos trinta, quarenta, cinquenta, até que nos meus cinquenta e cinco anos minha alma desabou, quando em outubro ganhei de presente, um espelhinho de bolsa, Made in China. Ao abri-lo ele tinha duas faces, a face nova, e a face velha. Por acaso, primeiro me olhei na face nova, fiquei me achando, mas de repente tive vontade de sair correndo, e sumir, quando olhei a face velha, onde tudo aumentava… Eu disse: Tudo! Sei que o nariz aumenta quanto à idade vai que vai, mas era demais.
Mostrava as “pequenas” rugas que já tinham surgido e as que viriam daqui a vinte anos no mínimo. Nossa! E quando eu voltei depois de me olhar no espelho amigo, do meu banheiro… A criatura, porque amiga não é. Nem aqui, e nem na China, me larga essa, com ar de reprovação: – Tu já tá na idade de ser vó né! Tudo nela era muito agressivo. Respirei fundo para não pirar de vez, e não deixar baixar à barraqueira que existe mim, e dizer: Sai daí mal amada, mal educada… Por acaso eu vou procriar pelos meus três filhos? Gente a coisa foi séria! E olha que sou apenas uma perua assumida, e detesto mulher fresca.
A partir dali não saia mais da frente de um espelho grandão, que antes eu ignorava, passava corrido… E te digo! Quem nunca teve essa crise de idade em alguma fase da vida, ou acha que não vai ter, atire a primeira pedra, fico aqui de prontidão, mas duvido que seja atingida por alguma. Essa Cabeça Ventana ficou muito complicada, por tempo demais pro meu desgosto. Eu sempre fui “ão”, nunca fui “inho”: Nunca fui bonequinha, bonitinha, barbezinha, mas minha alta autoestima nunca me baixou, graças a usar óculos só para ler e escrever… Para me olhar: Jamais! Por um acaso na época, assisti a um filme… 21 Gramas.
Guardando as devidas proporções de tristeza e tragédias narradas no filme, tinha bastante a ver com a crise que vinha sobrevivendo, porque crise é crise, não tem como medir a alma de cada um: A dor, o medo da perda, da velhice, da doença, da morte; principalmente do inesperado… O filme fala sobre as chances de recomeço que temos a cada vez que “morremos”. Sim, é isso mesmo que tu leu! O filme sugere que, de certa forma, as pessoas nascem e renascem ao longo da vida. Exagerado como eu! Talvez até o filme seja exagerado, trágico, triste, e chato. Mas essa metáfora de “renascer” me disse muito. Isso porque, hoje ao olhar para trás, consigo identificar algumas fases como fim, e um recomeço totalmente diferente, transformado… Com novas expectativas, emoções, sentimentos, sonhos… Uma “ressurreição” na própria vida! Independente do motivo penso eu que essa ressurreição é maravilhosa.
Ressuscitar é muito bom, possibilita que vivamos todos perrengues, as ciladas da vida com menos sofridão. E não é um espelhinho chinês, nossas rugas: caminhos esculpidos pelo tempo no nosso rosto, com tantas histórias vividas que vai nos tirar a paz até a hora da nossa morte, onde perderemos friamente, e cientificamente 21 Gramas: O peso da nossa alma! Alma não tem peso.