A Ampulheta Entupida

Mesmo só, estou mal acompanhado. Sou uma má influência para mim mesmo, sempre fui. E o mais grave é que aprecio momentos no aconchego da solidão de minha única e exclusiva companhia. Portanto sou bastante vulnerável à minha auto persuasão.
Digo isso para iniciar minha “pseudofilosofia de buteco” de porque me causa uma certa contrariedade esse culto a realização das próprias vontades do tipo “faço o que der na telha, e vejo no que vai dar” como se isso fosse a mais pura expressão da liberdade me contraria um pouco. Para mim as coisas vão exatamente na contramão disso: Sou muito mais livre quando vou CONTRA minhas vontades. Talvez porque minhas vontades sejam um tanto deturpadas, desviadas, doentias ou sei lá o que. Me é mais saudável e produtivo ser adepto da frase de um outro “pseudofilosofo” mil vezes mais talentoso do que eu, Renato Russo, que diz: “Disciplina é liberdade”. Nossa! Acredito demais nisso. A disciplina me liberta de muitas “vontades” equivocadas. Minha preguiça, má alimentação e inclusive de um terrível “cacoete” que tenho que é de sabotar minha própria felicidade. Enfim, por mais contraditório que possa parecer, sou mais feliz pra mim e melhor para os outros quado venço a maioria de minhas distorcidas “vontades”, e as substituo por metas a serem atingidas. A partir deste momento a vida flui mais serenamente para este errante ser aqui.
Porém, a disciplina é o único remédio de uso continuo que atua eficazmente contra o maior dos meus defeitos de comportamento, a procrastinação. Acalmem-se, se vocês ainda não sabem o significado desta palavra, já adianto que não se trata de nenhuma psicopatia que possa me fazer entrar em uma festa de salão paroquial disparando uma metralhadora contra todos. Vou procurar explicar em três exemplos práticos por que tenho alto potencial para ser um procrastinador:
1- Quando preciso estudar ou decidir sobre algo importante, o caótico voo de uma mosca, ou a vigésima nona reprise de Free Willy na Sessão da Tarde parecem super interessantes e merecem prioridade na minha atenção.
2- Ao ser questionado e cobrado pela minha diarista sobre o vazamento da pia da cozinha, respondo indignado: “Se eu falei que vou consertar é porque vou, não precisa ficar me lembrando de seis em seis meses.
3- Comprar os presentes antecipadamente e com calma é para os fracos. Todo ano prometo para mim mesmo que no próximo Natal não vou deixar para a última hora, mas o que sempre acaba acontecendo é que vou ao Shopping na tarde do dia 24/12 lutar pelos produtos restantes com a faca nos dentes e olhos de tigre.
Muitas vezes me questionei porque Deus não nos fez imortais. E olhando assim superficialmente, parece mesmo uma baita sacanagem Divina essa história de nossas vidas terem que acabar.
Porém analisando mais a fundo a questão, imagino o Todo Poderoso ali, analisando Adão e Eva desfrutando da sua obra recém concluída, como quem observa hâmsters numa gaiola. Aquela coisa meio parada, morna, com pouca ação. Tudo muito sem graça. Foi então que o Criador percebeu que a nossa existência teria que ter início e fim para que pudesse ter um meio razoavelmente interessante. E mais que do que isso, os recém gerados seres humanos feitos a sua imagem e semelhança, tinham que ter consciência de sua transitoriedade e mortalidade, esta falta da certeza sobre o amanhã os faria terem maior ânsia e gana por viver. Desde então, desperdiçar tempo, é desperdiçar vida. Adiar anseios é adiar a própria felicidade.
Por isso eu luto contra esse hábito que por vezes teimo em ter de me comportar como se fosse eterno. Esse péssimo vício de deixar para amanhã o que poderia fazer hoje. Como se minha ampulheta estivesse entupida. Como se o tempo estacionasse só me esperando embarcar para seguir viagem, mas eu já aprendi, pois Cazuza me ensinou, que “O tempo não pára”. Não devemos ser imediatistas e ansiosos em demasia, mas é inegável que uma certa urgência em viver se impõe nessa natureza fugaz de nossa mísera existência.
Concluo com a frase do mestre Millôr Fernandes: “MATAR o tempo não dá cadeia porque não é assassinato, é SUICÍDIO!”